terça-feira, 12 de julho de 2011

Velando



            Meu nome é Sergio e não gosto nem um pouco de velórios. Uma coisa estúpida de se dizer, eu sei. Ninguém em sã consciência deve gostar desse tipo de situação insólita e primitiva, com exceção dos donos de funerárias, claro. Quanto ao defunto... Não tenho lá muita certeza, mas se eu fosse um defunto com qualquer grau de consciência transcendental, ia achar uma droga. Na minha opinião, os velórios são como uma última chance imaginária de familiares distantes do morto de se redimir pela sua indiferença e ausência. Algo como uma prorrogação da existência do familiar que se foi só praqueles parentes bem distantes dizerem um “tchau” e “tudo de bom”. Infelizmente ninguém nunca voltou do outro lado para dizer “eu te perdoo” ou “quem é esse moleque com o dedo no meu nariz?”. Mas naquele dia, os papéis estavam invertidos. A única pessoa que havia para se redimir por ali era o próprio defunto. Da minha parte não haveria perdão, pelo menos por agora. Não sei bem o porquê dessa minha raiva, pois se me conheço bem, deveria estar no mínimo indiferente. Mais uma pessoa morreu, o que acontece todos os dias. Essa pessoa era meu avô, mas avô só de nome, pois ele nada mais era do que um desconhecido para mim.
A história toda me deixava inquieto, me trazia uma necessidade de sentir algo, ou como se meu avô me devesse alguma coisa. Sendo que não podia sentir saudades de uma pessoa que não compartilhei momento algum da minha vida, o que deveria eu sentir? Acho que raiva foi a opção mais viável encontrada pelo meu cérebro infantil, afinal me magoava o fato de minha mãe não ter sido criada por seus pais sem um forte motivo aparente. Crescer sem a presença dos pais é sem dúvida algo que faz falta a uma criança, e se tornauma ferida que jamais se fecha. Sei disso, pois praticamente não tivepai, um modelo, referência, um amparo. Um herói. Meu pai viera a falecer quando eu era ainda bem pequeno, resultado de um acidente de carro.
            Mas uma coisa que não se pode negar é como uma morte é capaz de reunir uma família, por mais separada que ela seja. Uma reunião forçada, indesejada e incômoda, mas uma reunião. Uma amarga repartição de pães entre tios, tias, primos, sobrinhos, todos tão diferentes, tão distantes, porém com sobrenomes, genes e uma tarefa em comum: Fazer sala para o presunto.    
            Vera, a minha mãe, já era acostumada com este tipo de situação. Já velara pelo seu marido, por alguns tios perdidos e mais recentemente por sua irmã, vítima do câncer. Por isso, ela chegava até a parecer ser muito mais próxima de nossos familiares distantes que estavam lá presentes com seus corpos, condolências e pesares, porém com as mentes vagando por um lugar bem distante. Ela cumprimentava a todos, que cordialmente lhe diziam palavras de conforto, ao que ela apenas forçava um sorriso e agradecia. Fiquei ali observando e achando a cena absolutamente ridícula, uma piada de mau gosto. Me senti uma pessoa amarga e horrível por pensar assim, e talvez eu realmente fosse, mas que se dane .Não pense que sou um monstro, que em minhas veias corre um líquido frio e ralo. Faço o tipo do homem ambiguamente bom e comum, que não mata e não rouba. Sou contra qualquer tipo de violência, pratico os bons costumes e essas coisas. Tento ajudar os outros como posso, caridade, conselhos, carinho, como uma grande peça de teatro, onde eu, o protagonista, era o que dormia o sono dos justos. Apesar de todas as qualidades que me faziam o tal “homem de bem”, muitos afirmariam que não (talvez eu incluso). Sou muito diferente de minha mãe, que é uma pessoa maravilhosa.
Apesar de tantos infortúnios, minha mãe sempre se mostrou uma mulher forte, pois por mais abalada que estivesse, nunca deixava transparecer aos outros, nem a si mesma seus sentimentos. Dizia ela que a vida era muito curta para só sofrer. O sofrimento é parente presente nesta vida, cabe apenas a nós encará-lo de forma que não se torne parte de quem nós somos, o que é dificílimo pra grande parte das pessoas. Mulher forte essa minha mãe, sem dúvida, por necessidade e principalmente por natureza. As mulheres são capazes de suportar infortúnios e dores com muito mais determinação que os homens, mas minha mãe era como o aço.
            Quanto a mim, devo dizer que sou um pouco patife, não suporto ver sangue, uma simples gripe me transforma em uma criança birrenta e catarrenta e inclusive já tive alguns episódios de depressão. Tudo isso, mais algumas outras particularidades minhas me classificam como um ser levemente antissocial, ou assim eu me vejo ou gosto de me ver, não tenho certeza. Preocupar-me em me expor e impressionar pessoas com as quais não possuo uma ponta de afinidade sequer não faz meu estilo. Acho esses acordos sociais simplesmente ridículos. Mas infelizmente faço parte deste mundo e às vezes forço um sorriso, desejo um bom dia e sigo em frente. É a lei da sobrevivência dos fracos. Mas minha postura muda quando reconheço que estou em presença de pessoas com as quais tenho certeza de que fazem questão de minha companhia não apenas quando estão carentes, sem ter com quem conversar, quando estiverem me vendendo um carro ou quando eu estiver dentro de um caixão de alças douradas e forro aveludado. Essas pessoas que fazem parte da minha vida, não da minha morte. Uma dessas pessoas é meu irmão mais novo, Décio. Desde pequenos, sempre fomos muito unidos. Neste dia, enquanto os familiares se reuniam em torno do caixão de nosso avô, eu e meu irmão estávamos sentados no corredor, estáticos, procurando moscas invisíveis no ar. O cheiro insuportável morte rosácea, o burburinho das pessoas rezando, dando seus pêsames, comentando sobre o incidente e suas circunstâncias davam a impressão de uma monotonia inexorável. Dado certo momento em que eu não suportava mais, virei para meu irmão como quem procura refúgio, mas ele já me fitava com um olhar estúpido, como era típico dele:
            - Que foi mano? Tá pensando no que?
            - Pensando um pouco em tudo... Na mãe, nos avós, nos idiotas, em nós...
            Virando o rosto de lado, ele suspirou uma monotonia amplificada, olhou pros sapatos enquanto balançava os pés e disse:
            - Estou de saco cheio de ficar aqui também. – fez uma breve pausa, mas logo emendou - Quer ouvir a minha ideia?
            Começou a dizer em meu ouvido que quando estava chegando ao cemitério, viu um bar bem ao lado e sugeriu que fôssemos lá tomar um refrigerante, o que aceitei prontamente. Levantamos como que numa coreografia de tediosos ternos apressados.
            Mas antes de irmos, decidi dar uma espiada em meu avô pela última vez. Não por nenhum tipo de sentimentalismo, mas como parte de todo esse ritual de velório. Apesar de não me apetecer nenhum tipo de ritual litúrgico, compreendo e deixo-me à mercê de um velho ditado: Que quem está na chuva, é pra se molhar. Aproximei-me do caixão e olhei o cadáver, que sorria imbecilmente pro teto e me molhei. Surpreendi uma lágrima me saltando dos olhos. Ali estava um senhor que apesar da idade, não aparentava fragilidade alguma a não ser o fato de que estava morto. Pensando melhor, os vivos é que são frágeis, já os mortos, nenhum infortúnio os aflige. Do chão não passa. Saltou-me da memória o dia quando conheci o velho morto, o dia de sua chegada ao Brasil. A primeira coisa que notei foi seu porte físico. As costas eram fortes e largas, disfarçavam muito bem os anos que pendiam delas. A postura era mais adequada que a minha e era mais alto e forte que eu. O brilho nos olhos jovem, os destacando em meio ao rosto amargo e enrugado pela ação do tempo e as coisas que o tempo traz. Um enorme e bem aparado bigode lhe acentuava as expressões, concedendo um ar afável à primeira vista. Cumprimentamo-nos formalmente como dois desconhecidos – o que de fato éramos – mas devido à barreira da linguagem, por eu não falar russo e nem ele português, não trocamos uma palavra sequer. Apenas observava a conversa entre ele e minha mãe (ela dominava o russo, o inglês e o alemão). Eu fiquei lá parado como um cachorro esperando por um osso que não existe. Ela havia tentado me ensinar russo, a língua da nossa família, mas como tudo o que começo, acabo desistindo ou perdendo o interesse, não entendia lhufas desse raio de idioma. O inglês eu conhecia decentemente, graças às aulinhas na escola, músicas, filmes etc.
            Aquele senhor forte e saudável de outrora jazia agora em um belo caixão na minha frente. Nunca poderia imaginar que dentro de tão pouco tempo o veria neste terno. Morreu de morte morrida, infarto, velhice, motor fraco. Uma surpresa previsível em idades demais avançadas. Talvez sua vinda ao Brasil pouco antes da morte tenha sido coincidência, mas como sou um pouco paranoico, cheguei a pensar que o velho já sabia que iria morrer e veio se aproveitar de nossa tão boa vontade. Meus devaneios então foram subitamente interrompidos por um incômodo puxão pelo braço e pela irritante voz enjoada do meu irmão:
- Vamos logo, porra.
 Não respondi, apenas deixei que continuasse me puxando pra longe dali, me afastando do caixão e da minha curiosidade mórbida. Enquanto saíamos, reparei em dois homens engravatados sentados no corredor que não certamente não velavam pelo meu avô e aparentemente não havia mais nenhum defunto por lá. Achei estranho, mas segui meu caminho.
            Conseguimos sair sem que nenhum dos nossos familiares notasse nossa escapada. Imaginei o que falariam de nós se nos vissem sair do velório do meu avô para ir ao bar e comecei a rir. Não que eu me importe com o que as pessoas pensam de mim, mas essas pessoas com certeza iriam ter com minha mãe, cuja opinião me importa e muito. Além de que, eu estava levando meu irmão caçula ao bar em pleno velório do meu avô, “que belo exemplo” diriam as minhas tias! E ninguém nunca acreditaria se eu dissesse que a ideia não foi minha, pois minha fama não era nada boa, ao passo que a dele era de garoto bom, estudioso. Definitivamente, eu era a ovelha negra da família. Não direi o que falam por aí de mim, pois é irrelevante nesta história. Se quiser saber quem sou, me veja com teus olhos, me escuta com teus ouvidos, não com os dos outros.
            Ser uma ovelha negra não é de todo ruim e é até bem divertido. As ovelhas brancas estão sempre umas juntas das outras, indo pra cá e pra lá, ao gosto do pastor. Mas no final quando o frio aperta e a demanda por lã aumenta, todas as ovelhinhas que eram brancas ficam peladas e rosas. E continuam indo pra lá e pra cá... Acredito que a demanda por lã preta é bem menor, o que quer dizer que posso ficar sozinho aqui com meus pelos.
            Ah, só uma consideração final acerca de velórios: quero ser cremado.

sábado, 9 de julho de 2011

Já é tarde

Todo dia acordo cedo e me olho no espelho.
Quando saio, ainda está escuro e já é dia quando chego onde devo,
mas não vejo o sol nascer. É de dar medo. 
levanto-me e tento não esquecer, 
que talvez não seja mais assim tão cedo.

A varanda

Daqui ouço o vento
com seu rugido varreu sem dó a velha varanda, 
onde outrora eu sentava e fumava sem fumaça, fazia graça, 
tossia sem tosse e tomava um gole seco de cachaça. 

Da minha nova varanda vi a antiga
acenei  e me despedi do que era meu 
sem dor no coração,
pois tudo isso o vento também daqui varreu.


Racismo?

Já me chamaram de tantas coisas as quais não repliquei: 
Anarquista, comunista, adventista, dentista e até bucetista.
 Até que veio um tal de Juvenal e me chamou de racista:
- Juvenal, tu és mesmo um animal. 
Quem tem raça é cachorro!
Humano só muda o focinho, mas a cara-de-pau é sempre igual.

Penso demais


Penso eu
Que talvez não pense nada demais,
Coisas antes importantes
Agora me parecem banais.

Hoje penso no que fiz ontem
E no que deixarei de fazer amanhã
Amanhã, pensarei no que deixei de fazer hoje
E que ontem tirei teu sutiã

Quem sabe um dia
Eu pense em algo importante e mude de idéia,
Ou talvez tenha apenas mais uma cefaléia...

Retrato de Maria


Queria,
Ao menos por um dia,
 Saber o que se passa na cabeça de Maria.
 
 Disse que viria, não veio.
Disse que caberia, não coube.
Disse muitas coisas, que sabia, mas não soube.
 
Me lembro de um dia,
Em que eu disse para Maria:
“A vida é bela para quem não amarela, guria.”
 Das cores da aquarela, é a mais singela, na tela, amarela.
"Amarela é a cor dos fracos" concordou ela.
 
Desse dia em diante
Não pensei mais em Maria ao menos por um instante
A não ser por agora
Em que tiro o seu já amarelado retrato da estante.