domingo, 28 de agosto de 2011

Veneno d'alma

Calma
O que já foi não mais existe,
não fica triste!
O que importa é o agora

Ainda ontem eu te disse:
-Não guardes rancor, meu amor, é tolice
Você se esqueceu e faleceu
Envenenou-se, mas o outro não morreu.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Devaneios matinais de um amigo

Ao piar do alvorecer
Pela rua, sigo meu caminho, sozinho,
A espera de algum brilho
Que me traga o destino.
A passos largos vou longe,
chego mais perto.

Brilho da manhã,
 seja digno de ser meu guia!

Deitarei-me
E debaixo dos primeiros raios de sol
Hei de dormir e esquecer
Do triste som dos brilhos do alvorecer.

Co-autoria de Rafael Consolmagno

Conceição e a Missa do Galo

            Nunca me esqueço de um rapaz, primo da ex mulher de meu marido, que se hospedou uns tempos em nossa casa, pois morava no interior e viera ao Rio estudar. Já estando de férias, o rapaz adiou sua volta a Mangaratiba para assistir à famosa Missa do Galo, na noite de Natal, lá pelos anos de 1861 ou 1862.
                Em um dia, como era de costume em outros dias, meu marido estava indo mais uma vez encontrar-se com sua amante sob o pretexto de estar indo ao teatro. O jovem rapaz que nunca assistira a uma peça na vida, sempre pedia ingenuamente que meu marido o levasse consigo, causando sempre uma consternação geral. Todos sabiam do caso do meu marido, e este rapaz em toda sua inocência juvenil não me via como mulher traída, pobre coitada. E isso me fazia feliz, de uma maneira sutilmente estranha.
Desde que o rapaz chegou aqui em casa, eu me simpatizava com ele cada vez mais, e ele comigo. Conversávamos às vezes, e cheguei a ver nele uma fonte de atenção que supria a falta de interesse de meu marido, e me ajudava a esquecer da minha tão cruel situação de mulher traída, presa a convenções sociais, presa no lar, presa na vida. Já havia pensado em fugir, mas a coragem me faltava.
No garoto eu vi alguém que não me visse somente como um mártir, uma coitada, vi alguém que me estimasse alem das aparências. Ele era divertido com seu jeito de menino, mas seus olhos tinham a agudez de um olhar de homem.  Nosso relacionamento e nossas conversas se resumiam apenas em assunto triviais, mas muito me agradava a presença e a atenção  que ele desprendia à mim.
               Na noite da Missa, o jovem rapaz havia combinado com um vizinho de encontrá-lo em sua casa, à meia noite, para que fossem assistir à igreja. Eram nove e poucas horas e como de costume, eu, minha mãe e nossas duas escravas já havíamos nos retirado para nossos aposentos. Deitei na cama, fechei os olhos e a imagem do rapaz me veio à mente. Imaginei-o sentado na cadeira da sala, sozinho, lendo um livro, esperando a hora de sair.
Eu me virava na cama pela quinta vez e não conseguia achar sono para dormir. Meu corpo inteiro sofria de uma inquietação, uma angústia, sentia o tique-taque do relógio levando consigo o valioso tempo em que eu estava aqui a tentar dormir.  Não agüentava mais, e com um pulo, levantei-me, vesti meu roupão branco apressadamente e me olhei no espelho. Estava totalmente desperta, arrumei os cabelos às pressas e saí do quarto furtivamente, de modo que não acordasse ninguém.
Chegando na sala, vi o rapaz absorto em um de seus livros. Assim que ele me viu adentrando a porta da sala, menção de levantar-se, num gesto meio desajeitado e polido, mas logo me adiantei: - Olá . Ele marcou a página, fechou o livro e o colocou na mesa ao lado, enquanto eu me sentava numa cadeira defronte dele. Educadamente me perguntou se eu acordei por conta dele, de algum barulho. Não escondendo minha inquietação, respondi que sofria de insônia naquela noite.  Pela expressão em seu rosto, ele não deve ter acreditado em mim,  deve no mínimo pensar que me acordou e sou muito educada e boa demais pra repreendê-lo. Logo, me disse que a hora já havia de estar próxima.
Reparei no livro que estava lendo, os Três Mosqueteiros. Começamos uma conversa na qual o rapaz parecia bem animado. Eu fitava-o nos olhos enquanto ele falava, mas não o ouvia. Satisfazia-me a sensação de estar perto dele, enquanto vários pensamentos corriam na minha cabeça. Não reparei quando ele acabou de falar e ficamos alguns segundos no mais alto silêncio. Dei por mim e endireitei minha cabeça, entrelacei os dedos e apoiei meu queixo, tendo os cotovelos nos braços das cadeiras, sem tirar meus olhos nos dos dele.  
Rompendo o silêncio, o rapaz disse que eram horas e já estava a sair. Ensaiou levantar da cadeira em um gesto impaciente, quando o detive. Eram onze e meia ainda, ainda tinha tempo. Começamos a conversar de novo. Perguntei-lhe se conseguia passar o dia bem desperto, após ir dormir na madrugada. Ele respondeu que sim, e eu disse que não conseguia passar o dia seguinte sem dormir um pouco a mais, já estava velha. Num tom como que quase de revolta ele disse:
- Que velha o que, D. Conceição!
De tão espontâneo seu tom de voz, não consegui conter um sorriso. Com uma mistura de prazer e inquietude, rapidamente me levantei e comecei a andar pela sala, parando algumas vezes, arrumando a cortina ou algum objeto que estava à mesa. Meu corpo se movia sozinho, pois minha mente estava noutro lugar. Senti que o rapaz prestava atenção em cada movimento meu, até que voltei a me aproximar e parei diante dele, encostada na mesa de permeio. Comecei a lhe falar sobre o meu espanto em vê-lo esperar a Missa acordado, pois era uma missa como qualquer outra. Ele me falou que as missas da roça não tinham tanto luxo nem tanta gente, e que não queria perder por nada. Enquanto ele falava, eu ia me inclinando cada vez mais com os braços apoiados na mesa, fazendo com que nossas faces ficassem cada vez mais próximas. Novamente, não ouvia mais nada, apenas o fitava em seus belos olhos, emergida em pensamentos, quando percebi que ele começou a falar alto. Reprimi-o, e pouco tempo depois, emendando um assunto no outro, ele se empolgava e começava a falar alto de novo. Reprimi-o mais algumas vezes, aterrorizada com a idéia de que alguém acordasse e nos visse conversando a sós aquela hora da noite.
Depois de um tempo, comecei a sentir o peso do sono em minhas pálpebras, fechava um pouco os olhos, mas logo eles se abriam, à procura dos penetrantes olhos do rapaz. Endireitei-me em frente a ele, e continuamos a conversar. Comecei a falar do passado, depois do presente, negócios da casa, canseiras de família e ele me olhava e me escutava atentamente, quase sem nenhuma interrupção. Tanta foi sua atenção que parecia espantar meu sono e abrir meus olhos. Sentia-me muito bem falando com ele, e me peguei desejando que ele desistisse de ir à missa e ficasse aqui comigo. Enquanto eu falava, a face do rapaz parecia brilhar e começou a revelar um olhar diferente do que ele tinha para mim antes de começarmos a conversar. Pareceu-me que naquele momento não existia mais marido, nem amante, nem teatro. Só nós dois.
Quando acabei de falar, ficamos uns instantes em silêncio, quando ouvimos uma pancada na janela e uma voz que bradava: - Missa do Galo! Missa do Galo!
Ironicamente, o rapaz havia se esquecido da tal missa e o amigo o qual ele deveria ter ido encontrar em casa, veio encontrar-lhe aqui. Despedimos-nos e ele foi embora. Assim que a porta se fechou, senti certo alívio, com uma pitada de frustração. 
                O rapaz acabou ficando em nossa casa até Maio do ano seguinte, mas nunca mais tivemos uma conversa como aquela da noite de Natal novamente. Sentia-me culpada por desejar um garoto, sendo eu uma mulher casada. Acabei por evitá-lo sempre que podia depois da fatídica noite.
               Ele voltou pro Rio um tempo depois e nunca mais nos falamos. Também soube que casou com uma moça lá de Mangaratiba.

Releitura da obra A Missa do Galo de Machado de Assis

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O Sedan Preto


             
                Marcos era um rapaz problemático. Na adolescência havia se envolvido com drogas de toda espécie, além de seu gosto pela bebida. Por várias vezes sua família havia tentado ajudá-lo, mas todos os esforços eram em vão. O rapaz era incontrolável.
                Foi quando tinha uns vinte e poucos anos que em uma das várias festas que freqüentava conheceu Mara, uma linda estudante de direito. Mara era exatamente o oposto de Marcos, era uma pessoa centrada, que nunca havia sequer tocado em substâncias ilícitas e só arriscava alguns goles de vinho ou champagne  em situações muito especiais. Era loira, alta com grandes e expressivos olhos azuis.
                Marcos ficou simplesmente obcecado pela garota e após insistentes convites da parte dele, ela finalmente concordou que saíssem para jantar. Apesar do jeito nada convencional do rapaz e de sua aparência, saíram mais algumas vezes até que começaram a namorar.
                Os amigos e a família de Marcos mal podiam acreditar quando viram aquele rapaz que outrora andava pelos bares da região vestido com farrapos velhos, cabelo comprido desalinhado e sempre envolvido em confusões, agora andava todo engomado, cabelo cortado e comportamento exemplar ao lado de uma mulher cuja beleza excedia as expectativas do que Marcos jamais pensara em arrumar. A garota havia conseguido em poucas semanas o que a família de Marcos não havia conseguido em anos: Colocar o rapaz nos eixos. Desde o começo do namoro, Marcos havia se afastado das más companhias, parou de usar drogas e inclusive não bebeu mais. Alguns falavam no “poder do amor”, já outros menos otimistas, olhavam desconfiados e murmuravam uns nos ouvidos dos outros.
                Marcos demonstrava seu amor por Mara de uma forma a qual surpreendia a todos, mas também exibia um ciúme quase doentio que assustava alguns. Apesar das mudanças que o amor havia operado na vida de Marcos, seu passado vivia batendo à porta do seu quarto lhe trazendo insegurança, ansiedade e por fim, loucura.
                A beleza da moça era tal, que por onde passava, fazia cabeças virarem, o que deixava Marcos furioso, causando até seu envolvimento  em algumas brigas ,mas apesar de todos os  problemas os dois vieram a se casar.
                O tempo foi passando e a vida de casado parecia obscurecer todo aquele amor que Marcos havia depositado em sua companheira. Voltou a tomar uns goles no bar da esquina sempre que retornava do trabalho e as brigas com Mara se tornavam cada vez mais freqüentes. Toda aquela leveza que sentia em seu coração quando estava ao lado da moça, agora era como uma gelatina em seu peito. Deitava-se para dormir e seu coração parecia bater mais rápido, mais devagar, mais forte e mais fraco.         
                Mara, apesar do comportamento pouco agradável de seu marido, sempre se esforçava em ser uma esposa fiel e solícita, mas para Marcos, nunca nada era suficiente. Suspeitas infundadas de um suposto caso de Mara povoavam sua mente e o faziam acordar de sobressalto no meio da noite, arremessando contra a parede tudo o que estivesse ao seu alcance.
                A despeito de todas as dificuldades afetivas e financeiras, o casal havia conseguido alugar um belo sobrado em frente a um consultório médico e uma vidraçaria, que refletia o lado oposto da rua com suas enormes vidraças e espelhos, numa rua calma e segura. Desde que conheceu Mara, Marcos havia conseguido seu primeiro emprego, como auxiliar de escritório em uma empresa de telecomunicações e desde então, havia provado ser um funcionário competente, sendo até merecedor de uma promoção. Por conta de seus ciúmes, não permitia que Mara trabalhasse, fazendo com que a moça passasse a maior parte do seu tempo ocupada com os afazeres da casa, o que ela fazia com carinho e dedicação. Mas por mais que as coisas cooperassem para seu bem-estar, Marcos nunca se sentia completo. Sonhava acordado com as noitadas ao lado de seus amigos, as intermináveis carreiras de cocaína que sumiam no horizonte e os copos de cerveja que só se esvaziavam com o nascer do dia. Olhava para os lindos olhos de sua esposa, descia seu olhar pelas curvas perfeitas de seu corpo, suas pernas compridas e torneadas até perceber que seus olhos haviam parado fixos no chão debaixo dos pés da moça e não havia sentido absolutamente nada.            
                Certo dia, Marcos acordou para o trabalho e foi fazer a barba. Olhou-se no espelho e não se reconhecendo de imediato, tomou um susto. Percebeu que seus olhos, outrora jovens e brilhantes, agora estavam envelhecidos e embaçados, como o olhar de animais de zoológico, que viviam no passado, quando ainda eram livres, mas agora jaziam mortos diante dos ingênuos olhares das crianças em uma preguiçosa tarde de domingo. Ficou ali um tempo olhando para seu reflexo, até que resolveu se arrumar e sair para não se atrasar para o trabalho.
                Saindo de casa, Marcos entrou em seu carro e percebeu que do outro lado da rua havia um carro preto estacionado e seus vidros escuros permitiam discernir a silhueta de um homem no banco do motorista. Ficou alguns minutos ali observando o veículo a fim de ver se o motorista descia, mas nada aconteceu. Resolveu seguir seu caminho. Chegou ao trabalho, desempenhou suas funções como uma máquina que eventualmente dava uma espiada no relógio, ávida por tomar uns preciosos goles no bar para depois retornar  para casa e retomar seu posto de incansável sentinela de seus bens.
                A partir desse dia, sempre ao  sair para trabalhar, Marcos via o sedã preto estacionado do outro lado da rua, esperava um pouco por algum movimento, mas nada nunca acontecia. Começou a ficar cada vez mais desconfiado, mas nada dizia à sua mulher. Bolou então um plano.
                No dia seguinte, como de costume, entrou em seu carro, olhou para o outro lado da rua e lá estava ele, o sedã preto com o misterioso homem ao volante. Não esperou um minuto sequer desta vez, engatou o carro e saiu. Deu algumas voltas a esmo e retomou o caminho de volta para sua casa, para resolver o mistério do carro preto de uma vez por todas. Ao chegar na rua de sua casa, estacionou defronte a clínica médica e pôde constatar que o carro preto não estava mais ali. Foi então que olhando para sua casa, viu um homem batendo à porta e poucos segundo depois, sua mulher a abriu permitindo que o homem entrasse.
                Todos os piores temores de Marcos haviam se concretizado. Sua linda esposa definitivamente o estava traindo. Com a cabeça girando e sem saber o que fazer, ele saiu com o carro em direção a lugar nenhum. Seus olhos estavam fixos no trânsito, mas sua mente transitava por entre as carregadas e mais escuras nuvens do céu:
                - Eu te avisei, essa mulher é uma vagabunda!
                - Trocou seus amigos, sua juventude, sua felicidade para ficar ao lado dessa mulher que agora está nos braços de outro!
                - Você é mesmo um corno, Marcos.
                Como num estalo, que tira as máquinas de seu eixo e as fazem ruir, tornando-se nada mais do que pilhas de metal retorcido, Marcos fez meia-volta rumo à sua casa. Durante o trajeto, ficou fantasiando todas as possibilidades e as atitudes possíveis que poderia tomar quando chegasse em casa. O pensamento em encontrar sua bela mulher com outro homem era uma certeza, a qual negava com todo o seu coração, porém sua mente já havia estabelecido o cenário nos mínimos detalhes. Parou na frente da sua casa, olhou para o outro lado da rua e lá estava ele, o grande sedã preto.
                Saiu do carro, ofegante e furioso, adentrou em casa, indo direto ao seu quarto. Enquanto subia as escadas, sua mente girava, sua visão escurecia e seu coração acelerou em antecipação ao que estava por ver. Empurrou a porta entreaberta do quarto e se deparou com sua mulher nua em cima da cama e ao aproximar-se, viu que os lençóis brancos estavam tingidos de vermelho e Mara tinha um profundo corte na garganta. Jazia morta com seus olhos azuis olhando para o teto.
                Um vizinho chamou a polícia, que pouco tempo depois prendeu Marcos em flagrante pelo assassinato de sua mulher.
                Condenado a passar o resto de seus dias na cadeia, Marcos até hoje se diz inocente e fala sobre um certo sedã preto.

               
               
                 

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O padre e a pistola

                Em uma noite de abril de 1764, em meio a fortes tempestades no Atlântico, um galeão espanhol separou-se de sua frota, indo a pique poucas horas depois, tendo colidido em arrecifes. Sua tripulação inteira pereceu, salvo o padre Romero, que por pura sorte, a despeito da fúria do mar, conseguiu manter-se agarrado a uma caixa de vinho, sendo levado já inconsciente a uma praia.
                Já amanhecia quando o padre recobrou sua consciência, coberto por algas marinhas e deitado de bruços na praia. Virou-se e ficou alguns instantes olhando para o céu, que não parecia ter despejado sua ira na terra poucas horas antes, pois não havia uma nuvem sequer. Aos poucos, o padre pôde compreender e lembrar-se do que havia ocorrido. Levantou-se vagarosamente enquanto sacudia as algas grudadas ao seu corpo e olhou em volta. Estava em uma praia, e além dela, tudo o que podia ver era uma densa vegetação, que cobria a paisagem como um carpete verde em um piso irregular. Um monte mais alto assomava na distância e alguns pássaros voavam ao redor do cume. Olhou para o mar e viu um horizonte de água que se confundia com o céu, de tão azul. Alguns destroços tinham sido carregados à praia juntamente com o padre, que não via mais nenhum de seus companheiros de viagem e percebeu a sorte que tivera por estar vivo. Ajoelhou-se e então agradeceu a Deus e a todos os santos a bênção de ter sobrevivido à tamanha desgraça e rezou por aqueles que haviam perecido.
                Fez o sinal da cruz, colocou-se de pé e resolveu então salvar tudo o que pôde dos destroços, pois não sabia ao certo quanto tempo ficaria por ali e precisava sobreviver. Começou o trabalho e em poucos minutos já suava, pois o sol castigava a terra violentamente e o calor era quase insuportável. Demorou-se ali cerca de duas horas e tudo o que pôde achar de útil foram pedaços de madeira e uma caixa cheia até a metade com caixas de vinho. Sentou-se embaixo da árvore onde outrora havia pendurado sua túnica e vendo que já estava seca a utilizou para secar o suor do rosto e tornou a olhar para o mar enquanto descansava.  O reflexo do sol na água ofuscava a sua visão, mas apesar disso, pôde distinguir algo boiando ali próximo. Levantou-se e correu até a margem. Colocou as mãos abertas sobre a testa e para o seu espanto, viu o que parecia ser um corpo à deriva, não muito longe.  Pulou na água, nadou até lá e segurando o corpo pela gola da blusa, esforçou-se para nadar de volta com o peso a mais. Arrastou o corpo para longe da água e caiu sentado, tentando recuperar o fôlego. O padre tinha em torno de quarenta anos, mas seu semblante sofrido lhe conferia alguns a mais. A vida no clero não havia lhe abençoado com um físico de marinheiro, todavia, sua fé era inabalável.
                Após recuperar suas forças, o padre virou o corpo de seu companheiro e viu que se tratava do primeiro imediato do galeão em que viajava. Milagrosamente, ainda preso em seu corpo estava seu cinto, e nele uma pistola, uma faca e um estojo com munição. Rezou por seu companheiro e agradeceu a Deus pela faca e a pistola que poderiam lhe ser úteis em sua luta pela sobrevivência. Utilizou uma tábua de madeira que havia retirado do mar como uma pá improvisada para cavar uma cova rasa para seu companheiro e o enterrou onde a praia se encontrava com a floresta.
Olhou novamente para o céu e pela posição do sol pôde deduzir que a tarde cairia em breve. Estava com sede e fome, então resolveu caminhar pela praia para ver se encontrava algo, antes de se aventurar floresta adentro.           
                Após uma hora caminhando, chegou ao fim da praia, que era abruptamente interrompida por uma enorme pedra, e ao lado, havia uma árvore com pequenos frutos azulados. Colheu alguns e resolveu dar uma pequena mordida em um deles, receoso de que poderiam ser venenosos. Havia estudado a flora e a fauna daquelas regiões, mas não se lembrava de ter visto aqueles frutos antes. Percebeu que apesar de um pouco amargos, eram bem saborosos e aquosos, mas resolveu esperar um tempo para comer mais, para ter certeza de que não lhe fariam mal. Iniciou a caminhada de volta.
                Ao chegar ao local onde havia enterrado seu colega, o padre abriu a caixa de vinhos, sentou na areia e deu alguns goles para matar a sede. A tarde já começava a ceder lugar à noite e o padre, já exausto, adormeceu ali mesmo.
                Acordou com os primeiros raios de sol do dia seguinte, que prometia ser tão quente e ensolarado quanto o anterior. Pôs-se sentado e apesar da sua situação, sentia-se bem e descansado. Lembrou-se dos frutos azuis que colhera, de como não haviam lhe feito mal e resolveu comê-los, pois apesar do bem estar propiciado pelo merecido descanso, estava faminto e ainda com sede. Comeu quase todos, lembrando de deixar alguns para mais tarde e tomou alguns goles da garrafa de vinho, que jazia parcialmente enterrada na areia ao seu lado. Não estava completamente satisfeito, porém revigorado. Ajoelhou-se e agradeceu a Deus por prover aquele alimento, que seria vital para sua sobrevivência.
                Levantando-se e batendo a areia em seu corpo, o padre sabia que apesar do vinho e das frutas, precisava achar água para beber e se lavar e também necessitava de outra fonte de alimento. Reuniu todas as suas forças e pôs-se a caminhar pela praia, mas desta vez no sentido oposto. Andou pela areia escaldante, ao ponto de não aguentar mais e se sentar ao pé de um coqueiro. Não viu nenhum sinal da presença de outras pessoas e começou a ter certeza de que realmente estava em um local inabitado, provavelmente uma ilha. Sentiu um fio de desespero passar por sua alma, mas foi logo acalentado por sua fé. Pôs se de joelhos e novamente agradeceu a Deus e aos santos por estar vivo.
                Vendo que por ali não havia nada de seu interesse, o padre Romero decidiu iniciar a caminhada de volta, pois precisava beber e comer mais um pouco, já devia ser a hora do almoço e com a vida regrada que levava, seu corpo já havia sido condicionado a horários precisos. Chegando lá, constatou que havia muito poucas frutas para o tamanho de sua fome e após comer a última, tomou vários goles de vinho, enterrou a garrafa na areia e começou a chorar.  Chorava de fome, de sede e por estar sozinho e desamparado naquele lugar inóspito. A sensação de dormência causada por muito vinho e nenhuma água deixou sua alma ainda mais frágil. Com a face escondida por entre as mãos, chorou e soluçou até que subitamente, sentiu uma dor aguda em seu dedão do pé. Com um salto, levantou-se e viu que havia sido beliscado por um enorme siri. Imaginou uma diversidade de profanidades e como seria bom bradá-las em alto e bom som na orelha dos grãos de areia e do mar, mas conteve-se. Pegou a mesma tábua de madeira que havia utilizado para cavar a cova do primeiro imediato e com um só golpe, matou o siri. Percebendo que apesar do beliscão que levara, agora tinha alimento. Viu ali a intervenção divina e pediu perdão a Deus por seu desespero e suas intenções blasfemas. Pôs-se de joelhos e agradeceu pelo alimento que Ele havia propiciado.
                Com um novo ânimo em seu coração, o padre tomou os últimos goles da garrafa de vinho, arremessou-a de volta ao mar e criou coragem para se aventurar pela mata em busca de água doce. Pegou a faca e a pistola, que estava carregada, porém a pólvora devia estar molhada, tornando a arma de fogo em um simples pedaço de pau. Pegou também o estojo de munição que havia encontrado no cadáver, o abriu e viu que o recipiente havia mantido o pouco de pólvora que havia ali seca, mas seria suficiente para apenas um disparo.  Carregou a pistola e resolveu levá-la consigo, mas só a usaria em caso de emergência. A faca seria sua primeira opção por agora. Vestiu o cinto, pegou mais uma garrafa de vinho da caixa e adentrou-se na mata virgem.
                Após algumas horas caminhando, o padre já perdia um pouco do ânimo e vendo uma pequena pedra logo à sua frente, resolveu sentar-se. Deu um passo e com um estrondo, o chão abriu-se sob seus pés, engolindo-o. Caiu alguns metros abaixo, ferindo seu joelho esquerdo. Urrou de dor e quando novamente pensava blasfêmias, sentiu algo gelado passando por seu corpo. Havia caído em um córrego subterrâneo e levando a água à boca, pôde perceber que era doce. Esvaziou a garrafa de vinho e a encheu com aquela água maravilhosa e cristalina, não sem antes ter bebido até sua barriga se encher. Ainda deitado, estendeu as mãos para o alto e novamente agradeceu a Deus pela graça e pediu que Ele lhe desse forças para sair daquele buraco. Lavou sua ferida e quando o sangramento havia diminuído, rasgou uma tira de sua túnica e envolveu o ferimento. Juntou todas as forças que pôde e ignorando a dor, pôs-se de pé dentro do buraco e olhando para as paredes, percebeu algumas raízes, as quais poderia utilizar para sair dali. Sabia que seria muito difícil, especialmente por estar com um dos joelhos ferido, mas de pouco em pouco, foi subindo e a cada centímetro, soltava um gemido de dor até que chegou à superfície. Deitou sobre as folhas secas, ofegante, e agradeceu a Deus e ao santos por terem lhe dado forças para sair daquele buraco. Depois de alguns minutos, pôs-se de pé, tomou um pouco de água, e mancando, seguiu o caminho de volta, marcado pelos talhos que havia feito nas árvores com sua faca quando vinha da praia, afim de não se perder ao retornar.
                Chegou ao fim da tarde em seu acampamento, tomou mais um pouco de água, tendo sempre o cuidado em racioná-la, pois somente retornaria ao córrego no dia seguinte. Cansado, porém animado, se dirigiu à tábua onde deixara o siri, que apesar de estar cru, daria uma bela refeição, mas para seu espanto, seu jantar não estava mais lá. Ficou alguns instantes observando a tábua, ouvindo sua barriga reclamar pelo jantar desaparecido e começou a se odiar por cometer um erro tão ridículo. Dera seu jantar de graça para algum animal selvagem que passara por ali. A fome castigava seu estômago, mas sendo o cansaço seu maior carrasco naquele momento, agradeceu a Deus por tudo, tomou alguns goles de vinho e adormeceu na areia.
                Sonhava com um farto banquete ao som de cânticos sacros, que subitamente passaram de angelicais a demoníacos, como um urro da própria besta em seus ouvidos, fazendo com que todo o alimento à sua frente se transformasse em cinzas. Acordou com o coração batendo na garganta e percebeu que estava sendo atacado por um bando de javalis. Com a visão ainda embaçada do sono interrompido, pôde distinguir quatro criaturas que o cercavam e urravam. Fez menção em pegar a pistola que estava em cima da caixa de vinhos ao seu lado, mas um dos animais se adiantou e o acertou na perna ferida. O padre caiu no chão e antes que pudesse sentir alguma dor, puxou a faca que estava em sua cintura e apunhalou a besta com tanta fúria, que lhe perfurou o coração, fazendo o animal soltar um grunhido angustiante, para poucos segundos depois, vir a morrer em meio a areia tingida pelo sangue. Ouvindo o som da morte de seu companheiro, os animais restantes se assustaram e correram até desaparecer em meio a mata densa.
                Ainda no chão, o padre sentia o sangue quente do animal morto ao seu lado em seu corpo e começou a sentir uma dor excruciante na perna. Amaldiçoou aquele lugar, aqueles animais e, sobretudo a situação em que se encontrava. Com muito esforço, levantou-se, mas logo caiu novamente com a face na areia. Ali adormeceu e não sonhou com nada.
                Despertou com o canto de alguns pássaros que por ali voavam, se virou e passou a imunda túnica em seu rosto, tirando a areia que fazia sua pele coçar. Sentou-se, olhou o javali morto ao seu lado e depois para o seu ferimento na perna. O curativo estava coberto de areia, sangue, terra e exalava um odor desagradável. Tirou a bandagem, despejou um pouco de água no ferimento, arrancou mais uma tira da parte menos suja de sua túnica e fez um novo curativo. Levantou-se. Novamente olhou para o animal que matara num golpe de sorte durante a madrugada e percebeu que afinal de contas, teria alimento, mas precisava fazer fogo. Juntou algumas folhas secas, fiapos de madeira e pedaços de corda e começou a bater duas pedras que encontrara na beira do mar. Quase uma hora depois, suas mãos já em carne viva, uma pequena faísca surgiu, o padre assoprou e fez-se o fogo. Romero estendeu as mãos para o alto e disse “obrigado” com todas as suas forças para o céu. Passou a manhã e o início da tarde se ocupando em preparar e comer a carne do javali tomando vinho. Com sua barriga satisfeita com a comida e o coração alegre com o vinho, o padre usufruiu de uma sensação de bem-estar que há muito não sentia. Ficou ali, deitado sob uma árvore e olhando as ondas nascerem no horizonte e morrerem na praia.
                Após o breve fastio que se apoderou de seu corpo após a refeição, o padre decidiu que teria de buscar mais água fresca para beber e cuidar de seu ferimento e também teria de construir um abrigo. Guardou a carcaça do javali dentro da caixa de vinho, colocou a pistola na cintura e entrou na mata.
                Alguns dias se seguiram sem nenhum incidente, e o padre havia construído uma modesta moradia na beira da praia com os restos do galeão que o mar havia regurgitado. Com as caminhadas que dera já podia ter certeza de que se encontrava em uma ilha deserta e, além disso, não vira nenhum navio passando por perto. Estava sozinho e as chances de ser resgatado eram mínimas, se existentes. Sentia uma amargura em seu coração quando pensava em tamanho infortúnio que havia se abatido sobre ele, mas depois de terminar a construção de sua pequena cabana, ajoelhou-se com o joelho ainda ferido e agradeceu a Deus pelo abrigo.
                Havia tomado o cuidado de sempre alimentar o fogo que lhe custara o couro de suas mãos e fora bem-sucedido em manter a chama sempre acesa. O fogo lhe ajudara a cozinhar, lhe aquecer o corpo e iluminar a densa noite. Havia conseguido caçar mais alguns pequenos animais e com o pouco conhecimento de botânica que possuía, encontrou algumas ervas que faziam seu ferimento curar e não infeccionar.  Apesar de estar em um lugar inóspito, sozinho e praticamente sem nada, estava muito bem. Mas não se sentia assim, mesmo após comer e beber seu vinho, sentia uma escuridão que crescia cada vez mais em sua alma, pensamentos ruins lhe faziam acordar de sobressalto no meio da noite, pensava em tudo o que não veria mais e que tudo o que veria até o fim de sua vida seria aquela maldita ilha. Pagava suas dívidas com a sobrevivência e recebia comprovantes de monotonia e solidão. Falava com as pedras, com o mar e as estrelas. Fazia a sua oração noturna, deitava-se na cama de palha que havia improvisado dentro da cabana e adormecia com a tranqüilidade de quem está abrigado e o desespero de quem está perdido.
                Certo dia, acordou bem cedo, alimentou o fogo com mais alguns restos do navio e alimentou a si mesmo com algumas frutas que colhera no dia anterior. Mais uma vez, aventurou-se na mata para buscar água. No caminho de volta, avistou uma fumaça negra na distância e pôs-se a correr, deixando cair as garrafas de água no chão.
                Chegando ao acampamento, deparou-se com sua cabana em chamas. Os ventos haviam levado as altas labaredas da fogueira até a sua cabana, que tendo sido construída de madeira, folhas e corda, foi vítima fácil para o insaciável fogo. O padre, vendo aquela cena, caiu de joelhos e viu aquilo que para ele era sua última esperança se esvair em fumaça diante de seus olhos.  Abriu-se uma fenda por entre seus joelhos e Romero pôde então contemplar a profundidade do inferno, que de tão assustadora, fez sua alma desprender-se do corpo, levando sua coragem e sua fé. Com os olhos vidrados, refletindo as chamas, estendeu as mãos para o céu e gritou:
- Senhor Deus, obrigado por isto!
                Puxou a pistola do cinto, colocou o cano na boca e disparou.
                A alguns quilômetros dali, um marinheiro avistou um sinal de fumaça no horizonte e alertou o seu capitão, que alterou o curso da nau para que pudesse ser realizado o resgate dos possíveis náufragos.