segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Conceição e a Missa do Galo

            Nunca me esqueço de um rapaz, primo da ex mulher de meu marido, que se hospedou uns tempos em nossa casa, pois morava no interior e viera ao Rio estudar. Já estando de férias, o rapaz adiou sua volta a Mangaratiba para assistir à famosa Missa do Galo, na noite de Natal, lá pelos anos de 1861 ou 1862.
                Em um dia, como era de costume em outros dias, meu marido estava indo mais uma vez encontrar-se com sua amante sob o pretexto de estar indo ao teatro. O jovem rapaz que nunca assistira a uma peça na vida, sempre pedia ingenuamente que meu marido o levasse consigo, causando sempre uma consternação geral. Todos sabiam do caso do meu marido, e este rapaz em toda sua inocência juvenil não me via como mulher traída, pobre coitada. E isso me fazia feliz, de uma maneira sutilmente estranha.
Desde que o rapaz chegou aqui em casa, eu me simpatizava com ele cada vez mais, e ele comigo. Conversávamos às vezes, e cheguei a ver nele uma fonte de atenção que supria a falta de interesse de meu marido, e me ajudava a esquecer da minha tão cruel situação de mulher traída, presa a convenções sociais, presa no lar, presa na vida. Já havia pensado em fugir, mas a coragem me faltava.
No garoto eu vi alguém que não me visse somente como um mártir, uma coitada, vi alguém que me estimasse alem das aparências. Ele era divertido com seu jeito de menino, mas seus olhos tinham a agudez de um olhar de homem.  Nosso relacionamento e nossas conversas se resumiam apenas em assunto triviais, mas muito me agradava a presença e a atenção  que ele desprendia à mim.
               Na noite da Missa, o jovem rapaz havia combinado com um vizinho de encontrá-lo em sua casa, à meia noite, para que fossem assistir à igreja. Eram nove e poucas horas e como de costume, eu, minha mãe e nossas duas escravas já havíamos nos retirado para nossos aposentos. Deitei na cama, fechei os olhos e a imagem do rapaz me veio à mente. Imaginei-o sentado na cadeira da sala, sozinho, lendo um livro, esperando a hora de sair.
Eu me virava na cama pela quinta vez e não conseguia achar sono para dormir. Meu corpo inteiro sofria de uma inquietação, uma angústia, sentia o tique-taque do relógio levando consigo o valioso tempo em que eu estava aqui a tentar dormir.  Não agüentava mais, e com um pulo, levantei-me, vesti meu roupão branco apressadamente e me olhei no espelho. Estava totalmente desperta, arrumei os cabelos às pressas e saí do quarto furtivamente, de modo que não acordasse ninguém.
Chegando na sala, vi o rapaz absorto em um de seus livros. Assim que ele me viu adentrando a porta da sala, menção de levantar-se, num gesto meio desajeitado e polido, mas logo me adiantei: - Olá . Ele marcou a página, fechou o livro e o colocou na mesa ao lado, enquanto eu me sentava numa cadeira defronte dele. Educadamente me perguntou se eu acordei por conta dele, de algum barulho. Não escondendo minha inquietação, respondi que sofria de insônia naquela noite.  Pela expressão em seu rosto, ele não deve ter acreditado em mim,  deve no mínimo pensar que me acordou e sou muito educada e boa demais pra repreendê-lo. Logo, me disse que a hora já havia de estar próxima.
Reparei no livro que estava lendo, os Três Mosqueteiros. Começamos uma conversa na qual o rapaz parecia bem animado. Eu fitava-o nos olhos enquanto ele falava, mas não o ouvia. Satisfazia-me a sensação de estar perto dele, enquanto vários pensamentos corriam na minha cabeça. Não reparei quando ele acabou de falar e ficamos alguns segundos no mais alto silêncio. Dei por mim e endireitei minha cabeça, entrelacei os dedos e apoiei meu queixo, tendo os cotovelos nos braços das cadeiras, sem tirar meus olhos nos dos dele.  
Rompendo o silêncio, o rapaz disse que eram horas e já estava a sair. Ensaiou levantar da cadeira em um gesto impaciente, quando o detive. Eram onze e meia ainda, ainda tinha tempo. Começamos a conversar de novo. Perguntei-lhe se conseguia passar o dia bem desperto, após ir dormir na madrugada. Ele respondeu que sim, e eu disse que não conseguia passar o dia seguinte sem dormir um pouco a mais, já estava velha. Num tom como que quase de revolta ele disse:
- Que velha o que, D. Conceição!
De tão espontâneo seu tom de voz, não consegui conter um sorriso. Com uma mistura de prazer e inquietude, rapidamente me levantei e comecei a andar pela sala, parando algumas vezes, arrumando a cortina ou algum objeto que estava à mesa. Meu corpo se movia sozinho, pois minha mente estava noutro lugar. Senti que o rapaz prestava atenção em cada movimento meu, até que voltei a me aproximar e parei diante dele, encostada na mesa de permeio. Comecei a lhe falar sobre o meu espanto em vê-lo esperar a Missa acordado, pois era uma missa como qualquer outra. Ele me falou que as missas da roça não tinham tanto luxo nem tanta gente, e que não queria perder por nada. Enquanto ele falava, eu ia me inclinando cada vez mais com os braços apoiados na mesa, fazendo com que nossas faces ficassem cada vez mais próximas. Novamente, não ouvia mais nada, apenas o fitava em seus belos olhos, emergida em pensamentos, quando percebi que ele começou a falar alto. Reprimi-o, e pouco tempo depois, emendando um assunto no outro, ele se empolgava e começava a falar alto de novo. Reprimi-o mais algumas vezes, aterrorizada com a idéia de que alguém acordasse e nos visse conversando a sós aquela hora da noite.
Depois de um tempo, comecei a sentir o peso do sono em minhas pálpebras, fechava um pouco os olhos, mas logo eles se abriam, à procura dos penetrantes olhos do rapaz. Endireitei-me em frente a ele, e continuamos a conversar. Comecei a falar do passado, depois do presente, negócios da casa, canseiras de família e ele me olhava e me escutava atentamente, quase sem nenhuma interrupção. Tanta foi sua atenção que parecia espantar meu sono e abrir meus olhos. Sentia-me muito bem falando com ele, e me peguei desejando que ele desistisse de ir à missa e ficasse aqui comigo. Enquanto eu falava, a face do rapaz parecia brilhar e começou a revelar um olhar diferente do que ele tinha para mim antes de começarmos a conversar. Pareceu-me que naquele momento não existia mais marido, nem amante, nem teatro. Só nós dois.
Quando acabei de falar, ficamos uns instantes em silêncio, quando ouvimos uma pancada na janela e uma voz que bradava: - Missa do Galo! Missa do Galo!
Ironicamente, o rapaz havia se esquecido da tal missa e o amigo o qual ele deveria ter ido encontrar em casa, veio encontrar-lhe aqui. Despedimos-nos e ele foi embora. Assim que a porta se fechou, senti certo alívio, com uma pitada de frustração. 
                O rapaz acabou ficando em nossa casa até Maio do ano seguinte, mas nunca mais tivemos uma conversa como aquela da noite de Natal novamente. Sentia-me culpada por desejar um garoto, sendo eu uma mulher casada. Acabei por evitá-lo sempre que podia depois da fatídica noite.
               Ele voltou pro Rio um tempo depois e nunca mais nos falamos. Também soube que casou com uma moça lá de Mangaratiba.

Releitura da obra A Missa do Galo de Machado de Assis

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