terça-feira, 2 de agosto de 2011

O padre e a pistola

                Em uma noite de abril de 1764, em meio a fortes tempestades no Atlântico, um galeão espanhol separou-se de sua frota, indo a pique poucas horas depois, tendo colidido em arrecifes. Sua tripulação inteira pereceu, salvo o padre Romero, que por pura sorte, a despeito da fúria do mar, conseguiu manter-se agarrado a uma caixa de vinho, sendo levado já inconsciente a uma praia.
                Já amanhecia quando o padre recobrou sua consciência, coberto por algas marinhas e deitado de bruços na praia. Virou-se e ficou alguns instantes olhando para o céu, que não parecia ter despejado sua ira na terra poucas horas antes, pois não havia uma nuvem sequer. Aos poucos, o padre pôde compreender e lembrar-se do que havia ocorrido. Levantou-se vagarosamente enquanto sacudia as algas grudadas ao seu corpo e olhou em volta. Estava em uma praia, e além dela, tudo o que podia ver era uma densa vegetação, que cobria a paisagem como um carpete verde em um piso irregular. Um monte mais alto assomava na distância e alguns pássaros voavam ao redor do cume. Olhou para o mar e viu um horizonte de água que se confundia com o céu, de tão azul. Alguns destroços tinham sido carregados à praia juntamente com o padre, que não via mais nenhum de seus companheiros de viagem e percebeu a sorte que tivera por estar vivo. Ajoelhou-se e então agradeceu a Deus e a todos os santos a bênção de ter sobrevivido à tamanha desgraça e rezou por aqueles que haviam perecido.
                Fez o sinal da cruz, colocou-se de pé e resolveu então salvar tudo o que pôde dos destroços, pois não sabia ao certo quanto tempo ficaria por ali e precisava sobreviver. Começou o trabalho e em poucos minutos já suava, pois o sol castigava a terra violentamente e o calor era quase insuportável. Demorou-se ali cerca de duas horas e tudo o que pôde achar de útil foram pedaços de madeira e uma caixa cheia até a metade com caixas de vinho. Sentou-se embaixo da árvore onde outrora havia pendurado sua túnica e vendo que já estava seca a utilizou para secar o suor do rosto e tornou a olhar para o mar enquanto descansava.  O reflexo do sol na água ofuscava a sua visão, mas apesar disso, pôde distinguir algo boiando ali próximo. Levantou-se e correu até a margem. Colocou as mãos abertas sobre a testa e para o seu espanto, viu o que parecia ser um corpo à deriva, não muito longe.  Pulou na água, nadou até lá e segurando o corpo pela gola da blusa, esforçou-se para nadar de volta com o peso a mais. Arrastou o corpo para longe da água e caiu sentado, tentando recuperar o fôlego. O padre tinha em torno de quarenta anos, mas seu semblante sofrido lhe conferia alguns a mais. A vida no clero não havia lhe abençoado com um físico de marinheiro, todavia, sua fé era inabalável.
                Após recuperar suas forças, o padre virou o corpo de seu companheiro e viu que se tratava do primeiro imediato do galeão em que viajava. Milagrosamente, ainda preso em seu corpo estava seu cinto, e nele uma pistola, uma faca e um estojo com munição. Rezou por seu companheiro e agradeceu a Deus pela faca e a pistola que poderiam lhe ser úteis em sua luta pela sobrevivência. Utilizou uma tábua de madeira que havia retirado do mar como uma pá improvisada para cavar uma cova rasa para seu companheiro e o enterrou onde a praia se encontrava com a floresta.
Olhou novamente para o céu e pela posição do sol pôde deduzir que a tarde cairia em breve. Estava com sede e fome, então resolveu caminhar pela praia para ver se encontrava algo, antes de se aventurar floresta adentro.           
                Após uma hora caminhando, chegou ao fim da praia, que era abruptamente interrompida por uma enorme pedra, e ao lado, havia uma árvore com pequenos frutos azulados. Colheu alguns e resolveu dar uma pequena mordida em um deles, receoso de que poderiam ser venenosos. Havia estudado a flora e a fauna daquelas regiões, mas não se lembrava de ter visto aqueles frutos antes. Percebeu que apesar de um pouco amargos, eram bem saborosos e aquosos, mas resolveu esperar um tempo para comer mais, para ter certeza de que não lhe fariam mal. Iniciou a caminhada de volta.
                Ao chegar ao local onde havia enterrado seu colega, o padre abriu a caixa de vinhos, sentou na areia e deu alguns goles para matar a sede. A tarde já começava a ceder lugar à noite e o padre, já exausto, adormeceu ali mesmo.
                Acordou com os primeiros raios de sol do dia seguinte, que prometia ser tão quente e ensolarado quanto o anterior. Pôs-se sentado e apesar da sua situação, sentia-se bem e descansado. Lembrou-se dos frutos azuis que colhera, de como não haviam lhe feito mal e resolveu comê-los, pois apesar do bem estar propiciado pelo merecido descanso, estava faminto e ainda com sede. Comeu quase todos, lembrando de deixar alguns para mais tarde e tomou alguns goles da garrafa de vinho, que jazia parcialmente enterrada na areia ao seu lado. Não estava completamente satisfeito, porém revigorado. Ajoelhou-se e agradeceu a Deus por prover aquele alimento, que seria vital para sua sobrevivência.
                Levantando-se e batendo a areia em seu corpo, o padre sabia que apesar do vinho e das frutas, precisava achar água para beber e se lavar e também necessitava de outra fonte de alimento. Reuniu todas as suas forças e pôs-se a caminhar pela praia, mas desta vez no sentido oposto. Andou pela areia escaldante, ao ponto de não aguentar mais e se sentar ao pé de um coqueiro. Não viu nenhum sinal da presença de outras pessoas e começou a ter certeza de que realmente estava em um local inabitado, provavelmente uma ilha. Sentiu um fio de desespero passar por sua alma, mas foi logo acalentado por sua fé. Pôs se de joelhos e novamente agradeceu a Deus e aos santos por estar vivo.
                Vendo que por ali não havia nada de seu interesse, o padre Romero decidiu iniciar a caminhada de volta, pois precisava beber e comer mais um pouco, já devia ser a hora do almoço e com a vida regrada que levava, seu corpo já havia sido condicionado a horários precisos. Chegando lá, constatou que havia muito poucas frutas para o tamanho de sua fome e após comer a última, tomou vários goles de vinho, enterrou a garrafa na areia e começou a chorar.  Chorava de fome, de sede e por estar sozinho e desamparado naquele lugar inóspito. A sensação de dormência causada por muito vinho e nenhuma água deixou sua alma ainda mais frágil. Com a face escondida por entre as mãos, chorou e soluçou até que subitamente, sentiu uma dor aguda em seu dedão do pé. Com um salto, levantou-se e viu que havia sido beliscado por um enorme siri. Imaginou uma diversidade de profanidades e como seria bom bradá-las em alto e bom som na orelha dos grãos de areia e do mar, mas conteve-se. Pegou a mesma tábua de madeira que havia utilizado para cavar a cova do primeiro imediato e com um só golpe, matou o siri. Percebendo que apesar do beliscão que levara, agora tinha alimento. Viu ali a intervenção divina e pediu perdão a Deus por seu desespero e suas intenções blasfemas. Pôs-se de joelhos e agradeceu pelo alimento que Ele havia propiciado.
                Com um novo ânimo em seu coração, o padre tomou os últimos goles da garrafa de vinho, arremessou-a de volta ao mar e criou coragem para se aventurar pela mata em busca de água doce. Pegou a faca e a pistola, que estava carregada, porém a pólvora devia estar molhada, tornando a arma de fogo em um simples pedaço de pau. Pegou também o estojo de munição que havia encontrado no cadáver, o abriu e viu que o recipiente havia mantido o pouco de pólvora que havia ali seca, mas seria suficiente para apenas um disparo.  Carregou a pistola e resolveu levá-la consigo, mas só a usaria em caso de emergência. A faca seria sua primeira opção por agora. Vestiu o cinto, pegou mais uma garrafa de vinho da caixa e adentrou-se na mata virgem.
                Após algumas horas caminhando, o padre já perdia um pouco do ânimo e vendo uma pequena pedra logo à sua frente, resolveu sentar-se. Deu um passo e com um estrondo, o chão abriu-se sob seus pés, engolindo-o. Caiu alguns metros abaixo, ferindo seu joelho esquerdo. Urrou de dor e quando novamente pensava blasfêmias, sentiu algo gelado passando por seu corpo. Havia caído em um córrego subterrâneo e levando a água à boca, pôde perceber que era doce. Esvaziou a garrafa de vinho e a encheu com aquela água maravilhosa e cristalina, não sem antes ter bebido até sua barriga se encher. Ainda deitado, estendeu as mãos para o alto e novamente agradeceu a Deus pela graça e pediu que Ele lhe desse forças para sair daquele buraco. Lavou sua ferida e quando o sangramento havia diminuído, rasgou uma tira de sua túnica e envolveu o ferimento. Juntou todas as forças que pôde e ignorando a dor, pôs-se de pé dentro do buraco e olhando para as paredes, percebeu algumas raízes, as quais poderia utilizar para sair dali. Sabia que seria muito difícil, especialmente por estar com um dos joelhos ferido, mas de pouco em pouco, foi subindo e a cada centímetro, soltava um gemido de dor até que chegou à superfície. Deitou sobre as folhas secas, ofegante, e agradeceu a Deus e ao santos por terem lhe dado forças para sair daquele buraco. Depois de alguns minutos, pôs-se de pé, tomou um pouco de água, e mancando, seguiu o caminho de volta, marcado pelos talhos que havia feito nas árvores com sua faca quando vinha da praia, afim de não se perder ao retornar.
                Chegou ao fim da tarde em seu acampamento, tomou mais um pouco de água, tendo sempre o cuidado em racioná-la, pois somente retornaria ao córrego no dia seguinte. Cansado, porém animado, se dirigiu à tábua onde deixara o siri, que apesar de estar cru, daria uma bela refeição, mas para seu espanto, seu jantar não estava mais lá. Ficou alguns instantes observando a tábua, ouvindo sua barriga reclamar pelo jantar desaparecido e começou a se odiar por cometer um erro tão ridículo. Dera seu jantar de graça para algum animal selvagem que passara por ali. A fome castigava seu estômago, mas sendo o cansaço seu maior carrasco naquele momento, agradeceu a Deus por tudo, tomou alguns goles de vinho e adormeceu na areia.
                Sonhava com um farto banquete ao som de cânticos sacros, que subitamente passaram de angelicais a demoníacos, como um urro da própria besta em seus ouvidos, fazendo com que todo o alimento à sua frente se transformasse em cinzas. Acordou com o coração batendo na garganta e percebeu que estava sendo atacado por um bando de javalis. Com a visão ainda embaçada do sono interrompido, pôde distinguir quatro criaturas que o cercavam e urravam. Fez menção em pegar a pistola que estava em cima da caixa de vinhos ao seu lado, mas um dos animais se adiantou e o acertou na perna ferida. O padre caiu no chão e antes que pudesse sentir alguma dor, puxou a faca que estava em sua cintura e apunhalou a besta com tanta fúria, que lhe perfurou o coração, fazendo o animal soltar um grunhido angustiante, para poucos segundos depois, vir a morrer em meio a areia tingida pelo sangue. Ouvindo o som da morte de seu companheiro, os animais restantes se assustaram e correram até desaparecer em meio a mata densa.
                Ainda no chão, o padre sentia o sangue quente do animal morto ao seu lado em seu corpo e começou a sentir uma dor excruciante na perna. Amaldiçoou aquele lugar, aqueles animais e, sobretudo a situação em que se encontrava. Com muito esforço, levantou-se, mas logo caiu novamente com a face na areia. Ali adormeceu e não sonhou com nada.
                Despertou com o canto de alguns pássaros que por ali voavam, se virou e passou a imunda túnica em seu rosto, tirando a areia que fazia sua pele coçar. Sentou-se, olhou o javali morto ao seu lado e depois para o seu ferimento na perna. O curativo estava coberto de areia, sangue, terra e exalava um odor desagradável. Tirou a bandagem, despejou um pouco de água no ferimento, arrancou mais uma tira da parte menos suja de sua túnica e fez um novo curativo. Levantou-se. Novamente olhou para o animal que matara num golpe de sorte durante a madrugada e percebeu que afinal de contas, teria alimento, mas precisava fazer fogo. Juntou algumas folhas secas, fiapos de madeira e pedaços de corda e começou a bater duas pedras que encontrara na beira do mar. Quase uma hora depois, suas mãos já em carne viva, uma pequena faísca surgiu, o padre assoprou e fez-se o fogo. Romero estendeu as mãos para o alto e disse “obrigado” com todas as suas forças para o céu. Passou a manhã e o início da tarde se ocupando em preparar e comer a carne do javali tomando vinho. Com sua barriga satisfeita com a comida e o coração alegre com o vinho, o padre usufruiu de uma sensação de bem-estar que há muito não sentia. Ficou ali, deitado sob uma árvore e olhando as ondas nascerem no horizonte e morrerem na praia.
                Após o breve fastio que se apoderou de seu corpo após a refeição, o padre decidiu que teria de buscar mais água fresca para beber e cuidar de seu ferimento e também teria de construir um abrigo. Guardou a carcaça do javali dentro da caixa de vinho, colocou a pistola na cintura e entrou na mata.
                Alguns dias se seguiram sem nenhum incidente, e o padre havia construído uma modesta moradia na beira da praia com os restos do galeão que o mar havia regurgitado. Com as caminhadas que dera já podia ter certeza de que se encontrava em uma ilha deserta e, além disso, não vira nenhum navio passando por perto. Estava sozinho e as chances de ser resgatado eram mínimas, se existentes. Sentia uma amargura em seu coração quando pensava em tamanho infortúnio que havia se abatido sobre ele, mas depois de terminar a construção de sua pequena cabana, ajoelhou-se com o joelho ainda ferido e agradeceu a Deus pelo abrigo.
                Havia tomado o cuidado de sempre alimentar o fogo que lhe custara o couro de suas mãos e fora bem-sucedido em manter a chama sempre acesa. O fogo lhe ajudara a cozinhar, lhe aquecer o corpo e iluminar a densa noite. Havia conseguido caçar mais alguns pequenos animais e com o pouco conhecimento de botânica que possuía, encontrou algumas ervas que faziam seu ferimento curar e não infeccionar.  Apesar de estar em um lugar inóspito, sozinho e praticamente sem nada, estava muito bem. Mas não se sentia assim, mesmo após comer e beber seu vinho, sentia uma escuridão que crescia cada vez mais em sua alma, pensamentos ruins lhe faziam acordar de sobressalto no meio da noite, pensava em tudo o que não veria mais e que tudo o que veria até o fim de sua vida seria aquela maldita ilha. Pagava suas dívidas com a sobrevivência e recebia comprovantes de monotonia e solidão. Falava com as pedras, com o mar e as estrelas. Fazia a sua oração noturna, deitava-se na cama de palha que havia improvisado dentro da cabana e adormecia com a tranqüilidade de quem está abrigado e o desespero de quem está perdido.
                Certo dia, acordou bem cedo, alimentou o fogo com mais alguns restos do navio e alimentou a si mesmo com algumas frutas que colhera no dia anterior. Mais uma vez, aventurou-se na mata para buscar água. No caminho de volta, avistou uma fumaça negra na distância e pôs-se a correr, deixando cair as garrafas de água no chão.
                Chegando ao acampamento, deparou-se com sua cabana em chamas. Os ventos haviam levado as altas labaredas da fogueira até a sua cabana, que tendo sido construída de madeira, folhas e corda, foi vítima fácil para o insaciável fogo. O padre, vendo aquela cena, caiu de joelhos e viu aquilo que para ele era sua última esperança se esvair em fumaça diante de seus olhos.  Abriu-se uma fenda por entre seus joelhos e Romero pôde então contemplar a profundidade do inferno, que de tão assustadora, fez sua alma desprender-se do corpo, levando sua coragem e sua fé. Com os olhos vidrados, refletindo as chamas, estendeu as mãos para o céu e gritou:
- Senhor Deus, obrigado por isto!
                Puxou a pistola do cinto, colocou o cano na boca e disparou.
                A alguns quilômetros dali, um marinheiro avistou um sinal de fumaça no horizonte e alertou o seu capitão, que alterou o curso da nau para que pudesse ser realizado o resgate dos possíveis náufragos.

               

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