quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O Sedan Preto


             
                Marcos era um rapaz problemático. Na adolescência havia se envolvido com drogas de toda espécie, além de seu gosto pela bebida. Por várias vezes sua família havia tentado ajudá-lo, mas todos os esforços eram em vão. O rapaz era incontrolável.
                Foi quando tinha uns vinte e poucos anos que em uma das várias festas que freqüentava conheceu Mara, uma linda estudante de direito. Mara era exatamente o oposto de Marcos, era uma pessoa centrada, que nunca havia sequer tocado em substâncias ilícitas e só arriscava alguns goles de vinho ou champagne  em situações muito especiais. Era loira, alta com grandes e expressivos olhos azuis.
                Marcos ficou simplesmente obcecado pela garota e após insistentes convites da parte dele, ela finalmente concordou que saíssem para jantar. Apesar do jeito nada convencional do rapaz e de sua aparência, saíram mais algumas vezes até que começaram a namorar.
                Os amigos e a família de Marcos mal podiam acreditar quando viram aquele rapaz que outrora andava pelos bares da região vestido com farrapos velhos, cabelo comprido desalinhado e sempre envolvido em confusões, agora andava todo engomado, cabelo cortado e comportamento exemplar ao lado de uma mulher cuja beleza excedia as expectativas do que Marcos jamais pensara em arrumar. A garota havia conseguido em poucas semanas o que a família de Marcos não havia conseguido em anos: Colocar o rapaz nos eixos. Desde o começo do namoro, Marcos havia se afastado das más companhias, parou de usar drogas e inclusive não bebeu mais. Alguns falavam no “poder do amor”, já outros menos otimistas, olhavam desconfiados e murmuravam uns nos ouvidos dos outros.
                Marcos demonstrava seu amor por Mara de uma forma a qual surpreendia a todos, mas também exibia um ciúme quase doentio que assustava alguns. Apesar das mudanças que o amor havia operado na vida de Marcos, seu passado vivia batendo à porta do seu quarto lhe trazendo insegurança, ansiedade e por fim, loucura.
                A beleza da moça era tal, que por onde passava, fazia cabeças virarem, o que deixava Marcos furioso, causando até seu envolvimento  em algumas brigas ,mas apesar de todos os  problemas os dois vieram a se casar.
                O tempo foi passando e a vida de casado parecia obscurecer todo aquele amor que Marcos havia depositado em sua companheira. Voltou a tomar uns goles no bar da esquina sempre que retornava do trabalho e as brigas com Mara se tornavam cada vez mais freqüentes. Toda aquela leveza que sentia em seu coração quando estava ao lado da moça, agora era como uma gelatina em seu peito. Deitava-se para dormir e seu coração parecia bater mais rápido, mais devagar, mais forte e mais fraco.         
                Mara, apesar do comportamento pouco agradável de seu marido, sempre se esforçava em ser uma esposa fiel e solícita, mas para Marcos, nunca nada era suficiente. Suspeitas infundadas de um suposto caso de Mara povoavam sua mente e o faziam acordar de sobressalto no meio da noite, arremessando contra a parede tudo o que estivesse ao seu alcance.
                A despeito de todas as dificuldades afetivas e financeiras, o casal havia conseguido alugar um belo sobrado em frente a um consultório médico e uma vidraçaria, que refletia o lado oposto da rua com suas enormes vidraças e espelhos, numa rua calma e segura. Desde que conheceu Mara, Marcos havia conseguido seu primeiro emprego, como auxiliar de escritório em uma empresa de telecomunicações e desde então, havia provado ser um funcionário competente, sendo até merecedor de uma promoção. Por conta de seus ciúmes, não permitia que Mara trabalhasse, fazendo com que a moça passasse a maior parte do seu tempo ocupada com os afazeres da casa, o que ela fazia com carinho e dedicação. Mas por mais que as coisas cooperassem para seu bem-estar, Marcos nunca se sentia completo. Sonhava acordado com as noitadas ao lado de seus amigos, as intermináveis carreiras de cocaína que sumiam no horizonte e os copos de cerveja que só se esvaziavam com o nascer do dia. Olhava para os lindos olhos de sua esposa, descia seu olhar pelas curvas perfeitas de seu corpo, suas pernas compridas e torneadas até perceber que seus olhos haviam parado fixos no chão debaixo dos pés da moça e não havia sentido absolutamente nada.            
                Certo dia, Marcos acordou para o trabalho e foi fazer a barba. Olhou-se no espelho e não se reconhecendo de imediato, tomou um susto. Percebeu que seus olhos, outrora jovens e brilhantes, agora estavam envelhecidos e embaçados, como o olhar de animais de zoológico, que viviam no passado, quando ainda eram livres, mas agora jaziam mortos diante dos ingênuos olhares das crianças em uma preguiçosa tarde de domingo. Ficou ali um tempo olhando para seu reflexo, até que resolveu se arrumar e sair para não se atrasar para o trabalho.
                Saindo de casa, Marcos entrou em seu carro e percebeu que do outro lado da rua havia um carro preto estacionado e seus vidros escuros permitiam discernir a silhueta de um homem no banco do motorista. Ficou alguns minutos ali observando o veículo a fim de ver se o motorista descia, mas nada aconteceu. Resolveu seguir seu caminho. Chegou ao trabalho, desempenhou suas funções como uma máquina que eventualmente dava uma espiada no relógio, ávida por tomar uns preciosos goles no bar para depois retornar  para casa e retomar seu posto de incansável sentinela de seus bens.
                A partir desse dia, sempre ao  sair para trabalhar, Marcos via o sedã preto estacionado do outro lado da rua, esperava um pouco por algum movimento, mas nada nunca acontecia. Começou a ficar cada vez mais desconfiado, mas nada dizia à sua mulher. Bolou então um plano.
                No dia seguinte, como de costume, entrou em seu carro, olhou para o outro lado da rua e lá estava ele, o sedã preto com o misterioso homem ao volante. Não esperou um minuto sequer desta vez, engatou o carro e saiu. Deu algumas voltas a esmo e retomou o caminho de volta para sua casa, para resolver o mistério do carro preto de uma vez por todas. Ao chegar na rua de sua casa, estacionou defronte a clínica médica e pôde constatar que o carro preto não estava mais ali. Foi então que olhando para sua casa, viu um homem batendo à porta e poucos segundo depois, sua mulher a abriu permitindo que o homem entrasse.
                Todos os piores temores de Marcos haviam se concretizado. Sua linda esposa definitivamente o estava traindo. Com a cabeça girando e sem saber o que fazer, ele saiu com o carro em direção a lugar nenhum. Seus olhos estavam fixos no trânsito, mas sua mente transitava por entre as carregadas e mais escuras nuvens do céu:
                - Eu te avisei, essa mulher é uma vagabunda!
                - Trocou seus amigos, sua juventude, sua felicidade para ficar ao lado dessa mulher que agora está nos braços de outro!
                - Você é mesmo um corno, Marcos.
                Como num estalo, que tira as máquinas de seu eixo e as fazem ruir, tornando-se nada mais do que pilhas de metal retorcido, Marcos fez meia-volta rumo à sua casa. Durante o trajeto, ficou fantasiando todas as possibilidades e as atitudes possíveis que poderia tomar quando chegasse em casa. O pensamento em encontrar sua bela mulher com outro homem era uma certeza, a qual negava com todo o seu coração, porém sua mente já havia estabelecido o cenário nos mínimos detalhes. Parou na frente da sua casa, olhou para o outro lado da rua e lá estava ele, o grande sedã preto.
                Saiu do carro, ofegante e furioso, adentrou em casa, indo direto ao seu quarto. Enquanto subia as escadas, sua mente girava, sua visão escurecia e seu coração acelerou em antecipação ao que estava por ver. Empurrou a porta entreaberta do quarto e se deparou com sua mulher nua em cima da cama e ao aproximar-se, viu que os lençóis brancos estavam tingidos de vermelho e Mara tinha um profundo corte na garganta. Jazia morta com seus olhos azuis olhando para o teto.
                Um vizinho chamou a polícia, que pouco tempo depois prendeu Marcos em flagrante pelo assassinato de sua mulher.
                Condenado a passar o resto de seus dias na cadeia, Marcos até hoje se diz inocente e fala sobre um certo sedã preto.

               
               
                 

Um comentário:

  1. Gostei muito do texto mén. E o final, como sempre me parecem os finais, teve um desfecho mais rápido do que esperava. Me fez lembrar até um conto de Poe que li a pouco. Assim que terminar a leitura te empresto o livro.
    Avraços

    Jesus

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