sábado, 17 de setembro de 2011

Isso é tudo?

                Lembro-me de quando era criança nitidamente. Dormia pesado, sonhava com dirigíveis cortando densas nuvens azuis e roxas, passeios de carro até o pé do arco-íris e animais fantásticos que falavam e acompanhavam-me nas mais diversas aventuras por mundos de grama alta, céus azuis e lagos escuros. Acordava sem me preocupar com o que o novo dia traria consigo.
                Foi numa dessas manhãs que minha mãe abriu a janela do meu quarto, fazendo com que os raios de sol queimassem meus pequenos olhos, olhei lá fora e vi uns garotos um pouco mais velhos que eu passando pela rua em reluzentes bicicletas.  Lembro-me das risadas dos garotos mescladas ao barulho das correntes deslizando nas catracas, enquanto desciam a ladeira em frente de casa. Achei simplesmente o máximo. Quando meu pai chegou do trabalho já era noite, dei-lhe um beijo e logo já disse:
                - Pai, me dá uma bicicleta?
                Meu pai nunca teve o costume de me mostrar as coisas muito fáceis, portanto, tudo o que disse foi um vago “vou pensar no seu caso”, palavras devastadoras para uma ansiosa mente infantil. Passaram-se excruciantes dias, até que numa bela tarde de sábado minha mãe pediu que eu fosse até a rua. Desci, e lá estava meu pai ao lado de sua grande caminhonete (que eu achava que era a maior do mundo) e com um sorriso, fez um sinal para que eu olhasse dentro da caçamba. Lá estava ela, a minha primeira bicicleta. Abracei meu pai com toda a minha força e quando finalmente o larguei, ele pegou a bicicleta e a colocou no chão. Fiquei ali, me deliciando com a visão de tão belo presente e sem saber o que fazer. Não sabia o que fazer, pois não sabia andar de bicicleta, mas apenas o fato de possuí-la já me trazia uma enorme alegria. Fui dormir feliz, com a bicicleta encostada ao lado da cama.
                No dia seguinte, meu pai me acordou cedo e disse que iria me ensinar a andar. Eu aceitei a oferta um pouco receoso, mas a minha vontade de domar aquela fera neutralizava qualquer medo que eu pudesse ter. Queria apenas me juntar aos garotos e aos seus risos, fazer aquele barulhinho na ladeira e sentir o vento em meus cabelos.
                Fomos a um beco sem saída próximo de casa, subi na bicicleta com meu pai a segurando pela parte da trás do banco e comecei a pedalar. Andava devagar e em círculos, sempre sentindo o amparo de meu pai e tendo a certeza de que ele não iria me soltar. Perdi o medo, comecei a pedalar mais rápido e quando olhei para trás, vi que meu pai havia ficado na distância. Não parei mais.
                Enfim, com a minha bicicleta e a minha nova habilidade, havia me juntado à turminha da minha rua e me sentia feliz como nunca. Passávamos tardes inteiras andando pelo bairro, apostando corridas e quando nos cansávamos, encostávamos as bicicletas nas árvores do parque e conversávamos sobre os novos modelos de bicicleta que tinham marchas, sobre o quão rápido descemos a ladeira e como fora engraçado o tombo que o Leonardo tomou em frente às meninas da rua de baixo.
                O tempo passou, um dos garotos mudou-se com a família para Curitiba, outro que tinha o pai rico ganhou um patinete motorizado e o Leonardo morreu afogado na piscina da escola. Um dia, descendo a ladeira sozinho, senti que aquilo não era mais tão mágico como me parecia quando observava da janela do meu quarto. Um carro dobrou a esquina subitamente, fazendo com que eu desviasse em direção à guia, resultando em um baita tombo com a bicicleta caindo por sobre meu corpo, infringindo-me um doloroso corte na perna. Não chorei. Empurrei a bicicleta pro lado, sentei, fiquei olhando pra ela caída ali e perguntei-me:
                - Era isso?
                Os anos se passaram e eu, agora adolescente, não via a hora de fazer dezoito anos para que pudesse dirigir. Adorava carros. Mas o tempo parecia arrastar-se e nunca que a idade fazia favor de chegar nem o tempo de passar. Mas como todo tempo ele passou, fiz dezoito e meu pai me deu uma velha picape Fiorino branca, que no dia em que ganhei, mais parecia uma Ferrari vermelha com uma loira de olhos azuis dentro. O carro estava abandonado há uns anos, os pneus estavam murchos e quando abri a porta pela primeira vez, a porta fez um ruído de portão de cemitério. O interior do carro cheirava a mofo e os bancos estavam rasgados. Eu não ligava. Só queria dar a partida e dirigir aquela máquina rumo ao desconhecido. Coloquei a chave no contato, girei, mas o carro não pegou, como era de se esperar. Mas claro que na minha angústia adolescente eu não contava com esse contratempo. O carro teve de ser guinchado para uma oficina e depois de alguns dias que nunca passavam, pude finalmente dirigir meu carro pelas ruas da cidade.
                Sentia-me o dono do mundo. Podia ir para onde quisesse, quando quisesse. Essa sensação de poder era maravilhosa. Eu ficava zonzo só de imaginar nas possibilidades. Bom, aventuras e desventuras foram o que não faltaram a bordo da minha Fiorino, mas um belo dia, preso no infernal trânsito de São Paulo e cansado de ter passado o dia inteiro ao volante, frustrado, olhei para as luzes verdes do painel do carro e perguntei-me:
                - Era isso?
                Mais um tempo se passou, e acabei por me apaixonar. O nome dela era Adriana e cada vez que alguém falava esse nome, meu coração dava um pulo. Passávamos horas juntos, às vezes conversando, às vezes apenas olhando um nos olhos do outro. Era maravilhoso. Ia dormir todas as noites pensando em sua face, acordava pensando em sua voz e passava o dia imaginando o que ela estaria fazendo e quando iria vê-la de novo. Até então, nunca havia experimentado algo tão sublime em toda a minha existência: O Amor.
                A vida parecia me dar um sorriso largo a cada manhã com uma promessa de ter Adriana próxima a mim. Mas um belo dia, ela me deixou. Pouco tempo depois fiquei sabendo que ela namorava um conhecido meu da escola. Até então, nunca havia experimentado algo tão doloroso na minha breve vida. A vez em que decepei meu dedinho do pé andando de skate descalço pareceu uma cosquinha.  Havia perdido o meu amor. Adriana se fora. Achei que ia morrer, mas não morri.
                Olhando para uma foto nossa, agora molhada pelas minhas lágrimas, pensei na palavra “amor” e me perguntei, soluçando:
                - Era isso?
                Eu sei o que você, leitor, pode estar pensando: “Se é assim que ele se sente com relação a tudo, por que não se mata, acaba com tudo de vez?”
                Eu vos digo que não, pois além de não ser do meu feitio (não sou corajoso, tampouco covarde o suficiente) não sei se algum dia estarei pronto para essa última decepção em que no momento final, estarei dando meu último suspiro e me perguntando:
                - Era isso?
              
                 Pois que se ergam os copos e brindemos à vida!






segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Novos tempos

Neste mundo de infinitas melodias
Procurava aquela para me acalentar
Tantos sons a escutar
Intermináveis dias a me perguntar
Será mesmo que haveria de a encontrar?

Hoje, já sou homem feito,
Calejado pelo tempo,
Tenho meus defeitos
Não mais acredito mais em contos de fada,
Mas sem teu conto talvez não seja nada
Sou o vento

Optei sim por sair do confortante conformo de teu seio
Em busca da minha vida,
Minha alegria,
Meu meio

E nessa nova vida escolho qualquer melodia
Sem esquecer-me do que passou, sigo em frente,
Ressequido, contente, experiente, deprimente
Sou o que fui, mas sou mais o que sou

E hoje sem desculpas, aceito com um sorriso o que me arrebata de repente
Poderia até esperar, mas ninguém me esperou.
Novos tempos, aqui já estou.