terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Magnífico poder de sintese


Você entra tenso no trem
procura um lugar vago no vagão pra se sentar
Se senta, ele parte.
Quando pára, as portas se abrem e eis que então entra 
o amor da tua vida. 
Se senta logo ali, bem na tua frente.
No vago do vagão,
que antes que se perceba, pára novamente 

Tchau!

Descemos do trem e chegamos em nosso destino,
mas acabamos por deixar nosso destino dentro do trem.
Sempre, em todo lugar,
já aconteceu com você também.

Co autoria: Rafael Consolmagno

domingo, 25 de novembro de 2012

O homem e a rosa

Fora o casamento dos meus pais que perdura até hoje (uma pérola rara), minha primeira impressão do amor foi no banheiro de um restaurante.
Eu devia ter uns seis anos, e na mesa do nosso lado havia um casal brigando, falando coisas que eu não compreendia. O rapaz tinha uma rosa nas mãos, mas pelo que me parecia, a moça não a aceitava de jeito nenhum. Comi minha pizza, terminei de tomar a garrafa de coca e, enquanto meus pais riam e bebiam, fui ao banheiro.
Adorava fazer xixi nos urinóis, era uma nova conquista, mas tinha que ficar na ponta dos pés. E foi ali que eu vi. 
A rosa vermelha que eu havia visto antes nas mãos do Tio da mesa do lado estava agora no urinol, em meio a todo aquele xixi e algumas pastilhas de naftalina. Fiquei muito triste, tão triste que fui fazer xixi na privada. Não aguentava olhar pra rosa naquele estado. Voltei pra mesa, vi que o casal já tinha ido embora e fiquei quieto o resto da noite. 
Agora que estou aqui te escrevendo esta mensagem, apaguei meu cigarro e vi a rosa no que restou da brasa. Tão bonita ela era, enrolada em um papel crepom branco e um laço de fita vermelha como a flor. Foi parar no urinol, como um símbolo da pureza e perfeição do amor boiando numa poça amarela e desprezível. 
Continuo com o coração quebrado. Foi só mais uma das decepções, pois desde que conheci a rosa, já tive a minha parcela de corações quebrados, egos lascados e flores mijadas. Eu achei que cada vez ia ficar menos triste, mais escaldado, mas nada. O que me deixa mais puto é pensar como uma coisa tão bela vai parar em lugares tão podres, como este cinzeiro na minha escrivaninha.
Pois veja bem, coração: esta última flor, era uma das mais belas do jardim. Senão a mais bela. Tão perfeita, com sua forma, sua cor, seu cheiro e seu calor, que me dispus a cuidar dela pro resto da vida, minha vida, meu amor. Mas veja só, essa flor queria que eu tocasse fogo no resto do jardim. "Foda-se", eu disse, por ela botaria fogo nesse mundo inteiro, mas desse mundo inteiro eu faço parte também. Acordei. 
A rosa era bela, mas de que adiantava tanta beleza e formosura em um campo de cinzas? Ou em meio à urina?
Deixo agora rosas florescerem noutros campos mais chamuscados, enquanto acendo outro cigarro. Quem sabe dá próxima não me apaixono por um copo-de-leite?

Fui colhida numa tarde ensolarada, logo depois de ter sido regada por uma senhora já idosa. O rapaz aproveitou o descuido dela, que entrara na casa para buscar alguma coisa, e me cortou com o canivete suíço: "tlac!". Foi um crime rápido e eficaz. Fui escolhida por ser uma das mais bonitas, talvez. Mas me sentia fraca. Ele levou-me pra casa e mergulhou-me num vaso para que eu recuperasse o viço. Pude ver que morava num lugar mais modesto do que a casa da senhora que me regava. Então ele me retirou da água e enrolou-me num papel branco e atou um laço de fita da cor de minhas pétalas. Logo eu estava com ele num restaurante, e da mesa onde me encontrava pude ver um casal e um menino de uns seis anos de idade. O menino soprava ar por um canudo num líquido preto, os adultos riam disso e ele, meio entediado, parecia não perceber a graça da coisa; queria é entender de onde vinham as bolhas, por quê é que brotavam do fundo como mágica.

Aproximou-se uma moça de cabelos negros, e o rapaz, radiante, ofereceu-me a ela. A moça recusou. "Você não me entende", disse ela, e o diálogo que se seguiu não foi muito diferente do que acontece entre um casal de mamíferos. Mamíferos são mesmo seres estranhos... Inventam tantos empecilhos e obstáculos quando é tão mais possível a simplicidade. Mais previsível também. Parece que gostam de complicar as coisas. Gostam de prolongar um encontro que pra nós, angiospermas, é tão linear: precisamos apenas da antera de outra flor que nos polinize o estigma. Ah, é claro: precisamos da visita de um inseto abelhudo que fuçe e faça cócegas em nosso gineceu, e ele já traz o pólen do qual precisamos. Também coleta pólen do nosso androceu e o leva pra outra flor. Pronto! Simples assim. Mamíferos são tão cheios de blablablá: precisam desse monte de salamaleques e regras de como entender o que se passa na cabeça um do outro. Pior: precisam de sintonia. Um precisa concordar com o outro para que o ritual se complete. E isso parece ser o mais difícil. Entendam-se, porra! É demais pra cabeça de uma rosa como eu. 

O rapaz não parecia muito bem. Sua autoconfiança, que instantes atrás irradiava-se como o sol, foi-se embora com a moça. De repente ele me levou pra uma bacia branca. E eu jamais imaginei que eu pudesse receber tamanha bênção: ureia em seu estado mais puro!! Ao alcance do talo! E eu nunca havia sido tão bem tratada por aquela senhora que me regava com água... Ao mesmo tempo em que o rapaz saía, entrou o menino que brincava com o refrigerante. E quando eu pensei que ele fosse ser tão generoso quanto o rapaz - fitou-me durante alguns minutos com seu rosto infantil - deixou-me ali, estendida. O menino foi embora cabisbaixo - vai ver não descobrira o segredo das bolhas - e eu fiquei ali por mais alguns instantes. Até que apareceu um homem vestido em preto e branco que, ao me ver no urinol, ralhou com outro que vestia azul. Esse bom homem me retirou de lá e me levou pra fora do restaurante, arrancou minhas folhas e me fincou na terra fofa e gostosa, um banquete pra um galho de rosa como eu. 

E é assim que espalhei meus ramos e virei outro pé de rosa, talvez mais viçoso que o original, que outrora morou na casa de uma velha senhora. Mas os humanos, esses ainda não entendo. Gosto deles - e penso aqui com meus espinhos que, não fosse por seus corações bagunçados, talvez não tivesse tanta sorte. De repente precisam de um inseto que faça o trabalho de polinização, vai saber...? Dizem que a culpa disso tudo são os hormônios que bagunçam a cabeça dos apaixonados. Nós, angios, só precisamos mesmo de auxinas e giberelinas. Muito mais simples. Ponto. 

Vai uma rosa aí, mamífero?

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Nasdróvia

Foi em um ensolarado dia em Varsóvia
ou talvez em meio uma nevasca na Cracóvia (não me lembro bem)
foi quando conheci a garota espanhola,
muito faceira, 
desafiou-me a rimar com seu nome.
Tal garota, nada simplória, se chamava Gloria
Pois veja bem, não me incomode.

Foi logo que entrei na igreja, vestindo nada além de uma cornucópia
dançando tango e cantando ópera.
Alguém veio lá da frente e me disse: "Ei, mas isso não pode!"
Eu apenas sorri e pedi: "Calma, deixe-me contar a estória!"
"Ah meu amigo, não fode."

Fui logo preso e rotulado como escória
"Mas que cara louco, deve estar num porre..." - disse o guarda.
Nada disso camarada, o que acontece é que não sou uma reles cópia
Em Varsóvia com a Glória e vestindo uma cornucópia... só anseio pela esbórnia!
Destarte, o que seria desta história?

Me liberaram, enfim, mas que alívio! Voltei direto prum bar e lá brindei à vida e à Gloria.
Tin-tin, saúde.
Em russo: "Nasdróvia!"

domingo, 9 de setembro de 2012

A luz no fim da estrada


Mas como é dura e amarga,
esta vida de alma penada.
“Vai pra luz” – Me disse um anjo de sorriso cortado,
uma piada de mal gosto.
Daqui só vejo a sombra da estrada,
quando só queria ver teu rosto.

Vejo esta estrada, que por vezes me conduziu à vida que eu tinha
Em meio aos ciprestes, eu fazia incauto suas suaves curvas, encanto que aprendi que não apreciava.
E foi lá mesmo que eu morri, atropelei a mim mesmo
De carreta pra carroça, uma desgraça danada!
Mas sim, agora eu vejo, claro como a luz no fim da estrada:
Nada como se estar morto pra saber o que é a vida, eu penso
eu peno.

E por fim, como se não bastasse,
encomendas tu a minha alma!
Mas se me serve de consolo
Ao menos em tuas irônicas preces eu vivo,
Vida passada, luz na estrada
Não te esqueças desta alma penada




segunda-feira, 23 de julho de 2012

Um pedido

Não sou desses de pedir muito
Tampouco daqueles que querem pouco,
riem a toa ou choram pelos cantos
Complacente,
aceito as consequências de meus atos.
Não me encanto.

Não peço por aquilo que a mim mesmo cabe
se eu choro, se eu rio, se eu conto se eu minto,

se eu vou, se eu volto, se eu mato, se eu amo
Quando a preguiça cede,

Eu faço, eu canto

E no meu canto eu peço.

Peço a Deus e ao diabo
- Me deixem em estar! - eu rezo.
continuem nessa eterna batalha, 
bom trabalho e boa sorte!

Se eu me importo?

O inferno é logo ali, segue reto
vire à sua direita e dez cairão ao seu lado,
Logo por ali é o céu, é perto.

O que eu busco aqui é a terra,
a paz
Quanto a minha alma, vejam bem, vendi ontem pra pagar o gás.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Caravela


Por mares conhecidos, perdidos dias de outrora
Desconhecida
Sob bandeira aliada ainda navegava, quando avistei.
“Lá está” - eu disse,
E logo, em meio a névoa, já se foi

O tempo passou e por vezes a lua mergulhou,
Quando no meio de uma tempestade,
hasteando bandeiras brancas
Tu te aproximaste

Do denso oceano, vieste de volta pros Palmares
Linda caravela, que antes sob escolta,
furiosamente singrava os mares
E agora flutua sozinha aborcada em meu lago raso,
com o vento ainda em suas velas
bela.
Sob o luar, caravela.



terça-feira, 27 de março de 2012

Gato escaldado

Tem o velho ditado, aquele que muito por aí se escuta e eu sei de cor
Me olhando de lado disse o velho, pobre diabo:  
“Tem medo de água fria o gato escaldado”
Fiz que entendi, continuei andando, pensando

Não consegui evitar e comecei a imaginar a cena,
pobre gato! (...pode uma coisa dessas?)
Mas peraí: Pra escaldar o bicho a água deveria ser quente.
Animal indolente,  por que temerias tu a água fria?
Foi lá no telhado, vendo a lua minguar que me ocorreu
O líquido incolor por si só já afastou o gato da bacia.

Gato escaldado, invejo tuas sete vidas
Pois só tenho seis corações quebrados
e um balde de água fria.
Água morna só pro banho, a escaldante já escaldou
O pior já passou

Por agora só te digo uma coisa, caro gato,
Na bacia de água, nem a ponta do meu rabo!

quarta-feira, 7 de março de 2012

A estranha

                 O calor estava insuportável e eu lá, dentro do carro, parado no trânsito numa rua da cidade. Praticamente estacionado, tentava me distrair observando a vida passar mais rápido do lado de fora. Olhava com os olhos semicerrados o vapor que saía do teto dos carros escaldados pelo sol de Março que castigava o concreto de nossa São Paulo. Veias dilatadas, coração acelerado e visão borrada, obscurecida pelos imprescindíveis óculos, sensações que me trouxeram memórias e um mal estar.  Lembrei-me dos meses que passei em casa no ano anterior, refém de dias bem quentes como aquele, vítima de minha própria mente. Na época, cheguei a pensar que havia cedido enfim à verdadeira loucura e viveria num devaneio eterno desses que vemos em filmes, ou manicômios.
            Eu tinha medo.
Acabei me recuperando, não somente graças aos remédios que o médico friamente me receitara por detrás de uma mesa cheia de livros mofados, mas também pelo apoio que recebi de um certo amigo. Conheci Raul pouco tempo depois da minha primeira crise. Ele era totalmente o oposto de mim, um cara seguro de si, decidido e que fazia tudo aquilo que lhe vinha à cabeça. Era um cara feliz.
Pra mim, que sempre vivi reprimido e agora com medos irracionais, ele era um herói. Mas apesar da ajuda de Raul, às vezes sentia o pânico respirando por sobre o meu ombro.  Esse é um mal que se abate sobre um grande número de pessoas hoje em dia. Vida agitada, avalanche de informações inúteis e relações interpessoais demasiadamente superficiais levam certos indivíduos a ficar com medo da sua própria sombra.
Síndrome do pânico, o medo do leão que nunca veio.  E quem teme mais as presas e garras do leão do que os ímpios?
            Tentei afastar esse pensamento de mim refletindo sobre os motivos pelos quais eu estava naquele lugar, naquela hora, no trânsito. Uma garota. Sim, Raul havia insistido para que eu a conhecesse, disse que tinha de sair de casa e conhecer pessoas novas. Ouvi seu conselho e fui atrás. Havíamos conversado um pouco pela internet e ela propôs que nos encontrássemos em um bar para uma cerveja e um bom papo.  A garota sofria dos mesmos males que eu – ansiedade, pânico e sabe-se lá mais o que -  e isso acabou nos aproximando. Doentes adoram falar de doenças, ou seria essa apenas uma desculpa pra conversarmos? Achei estranho tal convite partir de uma garota tão estranha, mas apesar da personalidade autodestrutiva e depressiva, ela se mostrou uma pessoa inteligente e idealista. Além do que, pelas fotos, me era bem atraente. Era um risco dos mais deliciosamente arriscados.
            Cheguei ao bar enfim, todo esbaforido, e lá estava ela. Cabelos pretos, pele branca e a mão delicada envolvendo uma caneca de chopp coberta de gelo. Água brotou da minha boca seca. Sorri e a cumprimentei timidamente, sentando e pedindo um chopp daqueles.

Ela sorriu.

            Falamos sobre tudo, desde história e filosofia até coisas triviais, passando pelos gostos e experiências de cada um. Percebi o quão interessante a garota realmente era e me senti bem à vontade em sua presença.
Bebíamos e conversávamos animadamente, enquanto eu observava como os seus cabelos negros emolduravam perfeitamente o rosto de nariz pequeno e os expressivos olhos castanhos. Não me parecia aquela garota insegura e cheia de problemas que conversava se escondendo atrás de mensagens de texto. Me parecia uma pessoa feliz e animada. Ânimo, do latim anima – Alma. Como disse lucidamente Neruda, “o riso é a linguagem da alma”; e não tem nada mais sexy do que uma mulher dessas rindo. Mas não parava por aí, pois além dessas qualidades que acho ter descrito, ela possuía mais uma: era uma garota brincalhona. Adoro mulheres molecas, eu mesmo sou meio moleque.
A temperatura agradável do bar e a garota com sua aura perfumada me fizeram esquecer de tudo que não fosse o presente, deixando o futuro – e a ansiedade – de lado. Eu, a garota e entre nós a cerveja, que cada vez mais exercia seu inebriante poder sobre minha cabeça, trazendo aquela sensação que só uma boa bebida e uma companhia feminina aprazível são capazes de causar. Mas decidimos sair dali por um motivo qualquer, dividimos a conta e saímos. Chegando lá fora, acendemos um cigarro e continuamos a conversar. Apesar da noite já ter destruído o dia, sentia o calor castigar meu corpo novamente. Comentei a respeito, ao que a garota simplesmente sorriu por entre a fumaça do cigarro. Disse então para que fôssemos pra sua casa, que era bem próxima dali e tinha ar-condicionado.

Ar condicionado.

Entramos no carro e mais uma vez, como um interruptor que se liga sozinho no meio da noite, senti aquele medo irracional. Uma angústia encheu meu coração enquanto o carro arrancava em direção ao promissor desconhecido. A sensação foi levemente afastada quando virei-me para garota e percebi que ela me fitava com um delicioso sorriso nos lábios, mas o conforto durou por pouco tempo. Poucos minutos nos levaram para frente do prédio em que ela morava. Ver aquele monstro de concreto ali, pendendo do firmamento escuro, obscureceu minha alma e perturbou minha mente. Pensei em ir-me embora dali o mais rápido possível, mas era tarde demais. Na batalha entre o pânico e o desejo, desci do carro seguindo a garota e seu doce perfume pra dentro do edifício, como que um robô flutuante. Não trocamos uma palavra até que o elevador parasse no oitavo andar e ela dissesse com o rosto meio de lado:

– É aqui.

Mais alguns momentos inexoráveis se passaram enquanto ela revirava a bolsa à procura das chaves, o que fez com que eu visse algumas caixas de remédios dançando por entre seus dedos. Amenizando minha angústia, eis que surgem as chaves com um tilintar confortante. Duas voltas na fechadura e a porta se abriu, revelando o peculiar interior do apartamento. Entrei depois dela e notei um odor químico estranho no ar, mas não conseguia identificar o que era. Casa de vó misturado com incenso, sei que é estranho, acredite, mas sou bom com cheiros. Fechei, enfim, a porta atrás de mim e senti o baque seco da maçaneta coincidindo exatamente com uma batida mais forte do meu coração, que quase pulou pela boca e depois pela janela semiaberta do apartamento.
A garota disse então para que eu me sentasse por ali enquanto ela tomava um banho. Escolhi o sofá bege e liguei o velho televisor da sala, que após um estalido não transmitia nada além de estática em todos os canais. Desliguei o aparelho e fiquei olhando em volta, à procura do tal ar-condicionado. O apartamento era todo branco, de uma limpeza impecável. Uma fotografia de um jovem casal pendia torta em uma das paredes. Logo abaixo, uma Bíblia aberta em cima da mesinha. Mas nada do tal ar-condicionado.
Levantei-me impacientemente e comecei a andar em círculos na pequena saleta. Os móveis escuros e lustrosos tinham um aspecto tétrico, com objetos precisamente alinhados uns com os outros. Sobre uma escrivaninha encontrei um frasco branco com umas pílulas brancas dentro, alguns papéis que me pareceram cartas e um estilete. Peguei uma das cartas e o que vi me deixou um pouco mais atordoado. O papel estava completamente coberto com palavras ininteligíveis em caneta vermelha. Coloquei os papéis meticulosamente onde antes estavam e decidi que precisava tomar um ar, mesmo que esse ar pútrido da cidade. Tudo devia ser coisa da minha cabeça.
Ofegante, caminhei até a janela e vi a rua movimentada lá embaixo. Pessoas estressadas em seus carros tão ocupadas em seus pequenos mundos, absorvidas por seus grandes problemas e limitadas a suas grandiosas vidas.

Senti um aperto no coração e depois algumas batidas mais fortes e rápidas.

Percebi que novamente o pânico me cercava. Virei-me, procurando afastar o medo de minhas veias, mas foi em vão. As paredes se fechavam ao meu redor e o cheiro do apartamento começou a me dar náuseas. Ao olhar novamente para a foto do casal sorridente num lugar indefinido do espaço-tempo, senti que ia desmaiar. Tudo que me veio à cabeça foram as suspeitas de que aquela menina era maluca e certamente estava cheia das intenções mais sórdidas comigo. Como fui tolo em confiar em uma garota tão estranha. Desabei sobre o sofá e pensei no que o Raul me diria nessa hora:
– Fica tranquilo amigo...
Ou talvez mais alguma besteira pra me fazer sentir melhor.
Estava procurando fôlego pra ir embora, quando ouvi um estalo e a porta do banheiro se abriu. Em meio ao vapor, emergiu Amanda vestindo uma camiseta bem larga, um shorts e o cabelo molhado caindo por sobre os ombros. Impulsivamente, me levantei, tomei-a em meus braços e beijei aqueles lábios finos. O pânico se fora e eu me fui com ele.
...
Acordei com um grito, era madrugada ainda. A luz se acendeu e pude ver que Amanda estava coberta de vermelho. Sentei-me e pude ver que ainda jorrava sangue de um profundo corte em seu punho direito. Muito terror nos olhos dela olhando incrédula para seus tendões rompidos por entre as camadas de pele e gordura que se misturavam ao sangue grosso. Ela olhou para mim e, cravando seus olhos nos meus, ensaiou um novo grito. Mas antes que ele pudesse sair, com um rápido e preciso movimento, cortei sua garganta com o estilete que ainda estava em minhas mãos.

- E foi assim que aconteceu senhor delegado.

O delegado tirou os óculos do rosto suado e os colocou na mesa, esfregou as mãos e perguntou:
- E essa foi a primeira vez que você faz mal a alguém?
- Foi sim senhor.
- E quanto ao sangue que encontramos em seu veículo? Ele não pertence à vítima.
- Não sei, senhor.
- Como não sabe? Alguém mais usa o seu carro?
- O Raul às vezes usa.
- Quem é esse Raul e onde podemos encontrá-lo?

Não respondi, pois senti um nó na garganta ao ouvir o rugido do leão chegando novamente. Meu coração batia na nuca e minha respiração se tornou rasa. Simplesmente não conseguia mais falar, havia sido novamente dominado pelo medo, que logo se transformou em pânico.

Apaguei.
...
O acusado, então réu confesso, permaneceu calado por um período aproximado de trinta minutos após ser inquirido sobre quem seria o tal amigo Raul e onde seria possível encontrá-lo, a despeito dos esforços policiais em fazê-lo falar. Foi então deixado sozinho na sala de interrogatório, onde permaneceu calado, sendo observado através do espelho falso. Subitamente, levantou-se e caminhou até o espelho, olhando para o próprio reflexo. Fechou os olhos com força e abriu-os novamente, sorrindo para si mesmo. Então disse a seguinte frase, que consta também em gravação de áudio, claramente captada pelos microfones, transcrita a seguir:

“- Fica tranquilo amigo...” 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A um amigo

Há muito conheci um garoto
Alegre, amigo, engraçado
Fizesse sol ou chuva
estava sempre ao meu lado

Hoje este garoto é um homem
Ainda alegre porém um pouco Casmurro
Talvez um pouco amargurado
Pois sua Capitu está do outro lado do mundo

Mas que mundo seria esse
Se não houvessem amigos como tu
Faça chuva, faça sol, ainda estão presentes
Amigo, abrigo, infinitas ruínas do Peru


E como seria a vida
se não houvessem esses amigos cafajestes
Tomando uma cerveja e rindo da própria miséria
Para que talvez nos esqueçamos um pouco das mulheres.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A menina dos olhos

                Foi numa festa na casa de um amigo, em ocasião que não me lembro bem que a vi pela primeira e última vez. O dia estava ensolarado e os convidados se espremiam pelos caminhos do enorme jardim de grama fresca e flores das mais diversas cores, que cercavam uma bela fonte de mármore . Um perfume desconhecido, porém doce pairava no ar.
                Sentado à beira da fonte com minha taça de vinho à mão, conversava com alguns amigos enquanto cumprimentava os conhecidos que se esgueiravam pelas rosas. Amigos de infância, da escola, parentes distantes, todos sorridentes sob o mesmo Sol. Eu sorria também.
                Algum tempo se passou, até que em meio a todo aquele burburinho ouvi uma risada quase que insana. Me virei e ali a vi. A garota ria e conversava com três amigas, dentre as quais duas delas me eram conhecidas.  Ela era loura e seus cabelos refletiam a luz solar como um prisma, dando a impressão de que, negando meus instintos, eu olhava fixamente para o sol (prefiro as morenas). Seus dentes alvos combinavam com o vestido branco e os lábios delicados pareavam com o narizinho afilado e levemente arrebitado. Na distância, parecia ser um pouco mais baixa que eu e tinha o corpo bem lânguido, a julgar pela influência da leve brisa em seu vestido que muito deixava pra imaginação. O ar preenchia o espaço entre seu corpo e o tecido para depois sumir e revelar uma curva aqui, um detalhe ali. Mas havia um detalhe o qual me foi privado: Lhe faltava uma parte do rosto: Seus muito provavelmente lindos olhos que os enormes óculos escuros encobriam. Desviei o olhar e voltei a prestar atenção nas pessoas que me cercavam, os amigos que estavam e sempre estiveram ali comigo, ao pé da fonte. Eles riam jovialmente.
                O tempo passava, a infinita conversa agradável continuava. E eu sempre a me certificar que ali ainda sorria, só ria a minha amada. Se eu já a amava? Ou ainda?
                Aconteceu por acaso, uma das minhas amigas que estavam com a tal moça se aproximou do meu grupo. Eu a conhecia desde tempos imemoriais, a tinha como amiga, colega, desconhecida, era a Cida. A chamei para perto de mim e perguntei quem era ela, aquela menina.  “É uma amiga minha do ... amiga do fulano de tal também, seu nome é ...”. Tudo era confuso, as palavras eram abafadas ou deixavam de fazer sentido, mas na verdade, quem ela era não me importava, desejava apenas fazer parte do mesmo universo utópico, lar de tão mítica criatura. “Venha, vou te apresentar”! Tive um micro-infarto, sobrevivi e lá me fui.
                Enquanto caminhava, questionava o porquê da abordagem tão romântica. Estaria eu bêbado, louco ou ambos? Haviam por ali dezenas, senão centenas de moças vistosas, a maioria provavelmente de uma beleza mais exuberante que a dela. Algumas delas eu conhecia, de perto, de longe, de ouvido, mas o desconhecido me atraía e se aproximava quadro a quadro.
                “Oi!”
                Fui recebido com aquele sorriso e nesse exato momento, tudo mudou:
               
             O mundo transformou-se  num borrão
                Transformou-se em aquarela
                O sol virou lua
                O céu virou terra               
                A única forma a qual eu distinguia
                Era a figura dela

                Conversamos, rimos, bebemos e ela não tirava os óculos escuros. Isso me incomodava, ser privado de olhar seu olhar, todavia, sua presença já me bastava. Achei infantil da minha parte, mas sabia que já a amava. Amava sua voz, amava seu cheiro, amava sua alma. Ainda a amava.
                Alguém da aquarela disse algo e a terra voltou a ser terra. “Nos vemos depois!”, disse ela. Resignei-me de volta ao mundo real, junto aos meus iguais, mortais.
                A noite se precipitava sobre nossas cabeças e pouco a pouco, os foliões se dirigiam para o gigantesco salão de festas. Entramos. Por dentro a casa parecia ser maior do que o infinito jardim dos tempos da fonte, mas ainda era demasiado pequeno para tanta gente familiar e despercebida. Era a hora do jantar, tocaram as trombetas.
                Passou-se uma eternidade desde que não via a menina dos óculos escuros novamente. Procurava-a dentre as diversas faces no meio da multidão, mas não a encontrava. Meu coração estava prestes a dilacerar-se de ansiedade quando aos poucos, sua figura começou a tomar forma em meio à multidão somente a alguns passos de onde eu me encontrava. Lá estava ela, sem os óculos escuros. Seria mesmo ela?”
                Os olhos eram claros, sem cor definida sob a penumbra do salão escarlate. Ela passou seu olhar sobre mim, mas parecia não me notar. Sumiu. Isso aconteceu mais algumas vezes, me olhava, eu sorria, ela fingia que não me via e sumia.
                O tempo arrastou-se por séculos, até que optei por existir, enfim. Caminhei de encontro dela e dei um esbarrão. Ela se virou e me fitou por alguns instantes com um olhar estúpido, quase de uma boneca.
                “Oi!” Eu disse, finalmente.
                Ela me puxou pelo braço, apertando seu corpo contra o meu:
“Ah! Aí está você!” 
     Nos beijamos como duas crianças que experimentam o primeiro beijo de todos tempos. O ar que ela exalava possuiu minhas entranhas e me fez flutuar até o teto, numa eternindade que durou o tempo de um sonho.
                Afastamos  lentamente nossas faces, de mãos dadas, e eu olhava fixamente nos olhos dela, mas ela apenas olhava para o vazio e sorria. Não entendia o que se passava com essa menina. Resolvi então perguntar por que fingia que não me via, por que não me olhava nos olhos, tão exquisita.
                “Não posso.” Disse ela. Não me contentei com a resposta e falei algo bobo que a magoou. Ela enterrou a face nas mãos e do meio de seus delicados dedos, vi uma lágrima escorrer. Antes que meu espírito pudesse se precipitar e dizer algo, ela me deu as costas e se foi. Sumiu pra sempre.
                Uma moça que estava por perto e vira a cena, aproximou-se de mim, pôs a mão em meu ombro e sussurrou no meu ouvido: “Ela é cega... Ela é cega.”
                Acordei com o despertador tocando e passei o dia todo pensando nela. Qual seria seu nome? Rafaela, Olívia, Manuela, Raquel, Gisella? Nunca vou saber. É simplesmente aquela, a minha vida, minha bela aquarela.



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Crônicas paulistas de praia - Parte I

                Fazia muito sol e eu dentro de casa lendo um livro mofado. O ano estava no fim e todos lá fora comemoravam o início do fim de um novo ciclo que eu nunca entendi. Fogos rompiam o silêncio do aqui e ali, o cheiro do novo se precipitando sobre a respiração da terra e corações se regozijando na possibilidade de um novo bom começo. Ano entra, ano sai, mas muito pouco muda. As coisas não mudam muito, tampouco as pessoas, tudo só fica mais novo e mais velho ao mesmo tempo.  “Bando de idiotas” falei pra mim mesmo sem levantar os olhos do livro.
                O telefone tocou:
                “Vamos passar a virada na praia?” A voz me perguntava, enquanto eu já vestia minha sunga.
                Pouco tempo depois, na companhia de Paulo, Márcia e Juliana, eu estava a caminho da tal cerimônia. Conversávamos jovialmente enquanto eu observava a massa metálica de automóveis se deslocar vagarosamente pelo asfalto que eu quase não podia ver. Rostos de óculos escuros se precipitando pelas janelas dos carros, pranchas de surf, cadeiras de praia, todas aquelas cores distorcidas pelo sol escaldante... Um espetáculo bizarro: Milhares de pessoas dentro de caixinhas de lata coloridas, abarrotadas até o teto das coisas mais variadas e cada caixinha emitindo seu som, às vezes risadas, uma criança chorando, uma música e às vezes tudo misturado, produzindo apenas um zumbido inexorável. Era o som da peregrinação paulistana ao santuário da deusa Alegria. Juliana interrompeu minha quimera com um delicioso beijo no pescoço. Me virei.
                Mais a frente, policiais rodoviários paravam alguns carros que já se encontravam quase parados, na esperança de pegar alguns bandidos indo fazer um arrastão na praia, ou mais provável, algum pobre coitado que não licenciou o carro porque não tinha grana e vai ter menos ainda depois de pagar o guincho e o pátio que o carro dele vai ficar durante todo o feriado.  Os policiais ganham uma comissão e todo mundo fica feliz.
                “Abaixa a bola, pô!”
                Passamos sem problemas pela barreira cinza, todos sorridentes pra não levantar suspeitas. Sim, éramos culpados cada um pela sua culpa.
                Gradualmente, operava-se uma mudança no ar: Cheiro de peixe e esgoto, a pele ficando grudenta, maresia, a alegria. Aquela aura teve o poder de refrescar nossos espíritos e o mar havia de lavar nossa alma. Enfim, a praia! Paulistano não sabe, mas não vive sem o cheiro de merda do Tietê e do Pinheiros, por isso, vai pra praia e caga por lá.
                Chegamos à casa de praia dos pais da Márcia, que gentilmente “emprestaram” o lugar para ela e suas “amigas” passarem alguns dias. Descarregamos nossas bagagens, trocamos de roupa e vamos a la playa!
                Caminhando descalços pela rua, passávamos pela fileira de carros que pareciam apenas fazer voltas infinitas no quarteirão. Rapazes com seus braços tatuados pra fora do carro com o som no último volume (engraçado como esses carros geralmente só tem homens dentro), tiazinhas tentando estacionar seus enormes utilitários no meio-fio e mais babaquices do gênero. A Márcia ia na frente de mãos dadas pro Paulo e eu e Juliana íamos logo atrás.              
                Ninguém namorava ninguém ali, pelo que eu sabia. Na verdade, eu não sabia muita coisa, ou não queria saber. Me sentia atraído por Juliana, apesar de ela ter cara de Teresa. A cara parecia uma perna, as pernas eram estúpidas, mas tinha belos olhos azuis, como o mar bem longe desta praia imunda.
                Depois de muito custo achamos nosso lugar ao sol, em meio ao mar de guarda-sóis. Nosso modesto pedaço de areia, que me dava pouca visão do mar, mas uma ótima perspectiva de corpos semi-nus de todos os tipos e tamanhos. Tomando a cerveja de praxe, fiquei alguns minutos observando aquela cena. Mulheres obesas bezuntadas de óleo deitadas na areia fritando no sol com crianças de movimento quase simiesco correndo ao redor. Aqueles rapazes que outrora desfilavam em seus carros do ano agora caminhavam pela praia segurando a respiração: “Barriga pra dentro e peito pra fora” e olhando a bunda das abençoadas. Comecei a rir sozinho, não sei se era a maresia batendo ou se precisava dar um mergulho.  Chamei o filho da puta do Paulo, que estava dando uns amassos na Márcia (que era muito mais gostosa que a Juliana, apesar de várias vezes eu já tê-lo flagrado olhando pra bunda dela. Vai entender por que a galinha do vizinho bota ovo amarelinho).
                Como na água também era difícil encontrar um espaço, fomos nadando mais para o fundo, desviando das pessoas solitárias com cara de paisagem, que obviamente estavam mijando ou coisa pior. Cheguei em um ponto em que não senti meu espaço invadido, relaxei e dei uma bela mijada. Pela fisionomia de Paulo, supus que ele fazia o mesmo. Ficamos ali alguns minutos boiando, dei uns mergulhos, conversamos um pouco sobre a menina de biquíni preto, a de biquíni azul e a de branco. Depois de um consenso (todas eram gostosas), resolvemos voltar pra as meninas e tomar mais umas cervejas para que o ciclo da vida se repetisse.
                O sol já se punha quando voltar para casa foi necessário. Bêbados, queimados, salgados, com areia nos ouvidos. Chegando lá, tomei um banho, me sentei numa cadeira da varanda, abri uma cerveja, acendi meu cigarro e continuei a ler o livro mofado que de última hora havia resolvido trazer. As meninas ainda se empetecavam pra não sei o que e o Paulo dormiu no sofá.
                Percebi que um dia no sol, no mar e enchendo a cara não faz muito bem pros miolos, sendo que as letrinhas dançavam até cair das páginas do livro. Desisti e adormeci docemente por dois segundos, quando ouvi a Juliana falando que queria ir pra uma boate mais tarde. Todos pareciam não ter gostado muito da idéia, especialmente o Paulo. “Porra pessoal, se é pra ficar num ambiente fechado, apinhado de desconhecidos, onde se mal pode conversar, a gente faz isso em São Paulo! Estamos na praia, caralho.”
                Sugeri que fôssemos tomar uma cerveja na beira da praia e depois caminhar bêbados na orla. A idéia agradou a todos, menos Juliana, que queria dançar. “Mais tarde você dança na horizontal”, eu disse baixinho no ouvido dela, tirando um sarro.
                “Vamos pra rua, ainda faltam dois dias para o ano novo!”

*A continuar...