terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A menina dos olhos

                Foi numa festa na casa de um amigo, em ocasião que não me lembro bem que a vi pela primeira e última vez. O dia estava ensolarado e os convidados se espremiam pelos caminhos do enorme jardim de grama fresca e flores das mais diversas cores, que cercavam uma bela fonte de mármore . Um perfume desconhecido, porém doce pairava no ar.
                Sentado à beira da fonte com minha taça de vinho à mão, conversava com alguns amigos enquanto cumprimentava os conhecidos que se esgueiravam pelas rosas. Amigos de infância, da escola, parentes distantes, todos sorridentes sob o mesmo Sol. Eu sorria também.
                Algum tempo se passou, até que em meio a todo aquele burburinho ouvi uma risada quase que insana. Me virei e ali a vi. A garota ria e conversava com três amigas, dentre as quais duas delas me eram conhecidas.  Ela era loura e seus cabelos refletiam a luz solar como um prisma, dando a impressão de que, negando meus instintos, eu olhava fixamente para o sol (prefiro as morenas). Seus dentes alvos combinavam com o vestido branco e os lábios delicados pareavam com o narizinho afilado e levemente arrebitado. Na distância, parecia ser um pouco mais baixa que eu e tinha o corpo bem lânguido, a julgar pela influência da leve brisa em seu vestido que muito deixava pra imaginação. O ar preenchia o espaço entre seu corpo e o tecido para depois sumir e revelar uma curva aqui, um detalhe ali. Mas havia um detalhe o qual me foi privado: Lhe faltava uma parte do rosto: Seus muito provavelmente lindos olhos que os enormes óculos escuros encobriam. Desviei o olhar e voltei a prestar atenção nas pessoas que me cercavam, os amigos que estavam e sempre estiveram ali comigo, ao pé da fonte. Eles riam jovialmente.
                O tempo passava, a infinita conversa agradável continuava. E eu sempre a me certificar que ali ainda sorria, só ria a minha amada. Se eu já a amava? Ou ainda?
                Aconteceu por acaso, uma das minhas amigas que estavam com a tal moça se aproximou do meu grupo. Eu a conhecia desde tempos imemoriais, a tinha como amiga, colega, desconhecida, era a Cida. A chamei para perto de mim e perguntei quem era ela, aquela menina.  “É uma amiga minha do ... amiga do fulano de tal também, seu nome é ...”. Tudo era confuso, as palavras eram abafadas ou deixavam de fazer sentido, mas na verdade, quem ela era não me importava, desejava apenas fazer parte do mesmo universo utópico, lar de tão mítica criatura. “Venha, vou te apresentar”! Tive um micro-infarto, sobrevivi e lá me fui.
                Enquanto caminhava, questionava o porquê da abordagem tão romântica. Estaria eu bêbado, louco ou ambos? Haviam por ali dezenas, senão centenas de moças vistosas, a maioria provavelmente de uma beleza mais exuberante que a dela. Algumas delas eu conhecia, de perto, de longe, de ouvido, mas o desconhecido me atraía e se aproximava quadro a quadro.
                “Oi!”
                Fui recebido com aquele sorriso e nesse exato momento, tudo mudou:
               
             O mundo transformou-se  num borrão
                Transformou-se em aquarela
                O sol virou lua
                O céu virou terra               
                A única forma a qual eu distinguia
                Era a figura dela

                Conversamos, rimos, bebemos e ela não tirava os óculos escuros. Isso me incomodava, ser privado de olhar seu olhar, todavia, sua presença já me bastava. Achei infantil da minha parte, mas sabia que já a amava. Amava sua voz, amava seu cheiro, amava sua alma. Ainda a amava.
                Alguém da aquarela disse algo e a terra voltou a ser terra. “Nos vemos depois!”, disse ela. Resignei-me de volta ao mundo real, junto aos meus iguais, mortais.
                A noite se precipitava sobre nossas cabeças e pouco a pouco, os foliões se dirigiam para o gigantesco salão de festas. Entramos. Por dentro a casa parecia ser maior do que o infinito jardim dos tempos da fonte, mas ainda era demasiado pequeno para tanta gente familiar e despercebida. Era a hora do jantar, tocaram as trombetas.
                Passou-se uma eternidade desde que não via a menina dos óculos escuros novamente. Procurava-a dentre as diversas faces no meio da multidão, mas não a encontrava. Meu coração estava prestes a dilacerar-se de ansiedade quando aos poucos, sua figura começou a tomar forma em meio à multidão somente a alguns passos de onde eu me encontrava. Lá estava ela, sem os óculos escuros. Seria mesmo ela?”
                Os olhos eram claros, sem cor definida sob a penumbra do salão escarlate. Ela passou seu olhar sobre mim, mas parecia não me notar. Sumiu. Isso aconteceu mais algumas vezes, me olhava, eu sorria, ela fingia que não me via e sumia.
                O tempo arrastou-se por séculos, até que optei por existir, enfim. Caminhei de encontro dela e dei um esbarrão. Ela se virou e me fitou por alguns instantes com um olhar estúpido, quase de uma boneca.
                “Oi!” Eu disse, finalmente.
                Ela me puxou pelo braço, apertando seu corpo contra o meu:
“Ah! Aí está você!” 
     Nos beijamos como duas crianças que experimentam o primeiro beijo de todos tempos. O ar que ela exalava possuiu minhas entranhas e me fez flutuar até o teto, numa eternindade que durou o tempo de um sonho.
                Afastamos  lentamente nossas faces, de mãos dadas, e eu olhava fixamente nos olhos dela, mas ela apenas olhava para o vazio e sorria. Não entendia o que se passava com essa menina. Resolvi então perguntar por que fingia que não me via, por que não me olhava nos olhos, tão exquisita.
                “Não posso.” Disse ela. Não me contentei com a resposta e falei algo bobo que a magoou. Ela enterrou a face nas mãos e do meio de seus delicados dedos, vi uma lágrima escorrer. Antes que meu espírito pudesse se precipitar e dizer algo, ela me deu as costas e se foi. Sumiu pra sempre.
                Uma moça que estava por perto e vira a cena, aproximou-se de mim, pôs a mão em meu ombro e sussurrou no meu ouvido: “Ela é cega... Ela é cega.”
                Acordei com o despertador tocando e passei o dia todo pensando nela. Qual seria seu nome? Rafaela, Olívia, Manuela, Raquel, Gisella? Nunca vou saber. É simplesmente aquela, a minha vida, minha bela aquarela.



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Crônicas paulistas de praia - Parte I

                Fazia muito sol e eu dentro de casa lendo um livro mofado. O ano estava no fim e todos lá fora comemoravam o início do fim de um novo ciclo que eu nunca entendi. Fogos rompiam o silêncio do aqui e ali, o cheiro do novo se precipitando sobre a respiração da terra e corações se regozijando na possibilidade de um novo bom começo. Ano entra, ano sai, mas muito pouco muda. As coisas não mudam muito, tampouco as pessoas, tudo só fica mais novo e mais velho ao mesmo tempo.  “Bando de idiotas” falei pra mim mesmo sem levantar os olhos do livro.
                O telefone tocou:
                “Vamos passar a virada na praia?” A voz me perguntava, enquanto eu já vestia minha sunga.
                Pouco tempo depois, na companhia de Paulo, Márcia e Juliana, eu estava a caminho da tal cerimônia. Conversávamos jovialmente enquanto eu observava a massa metálica de automóveis se deslocar vagarosamente pelo asfalto que eu quase não podia ver. Rostos de óculos escuros se precipitando pelas janelas dos carros, pranchas de surf, cadeiras de praia, todas aquelas cores distorcidas pelo sol escaldante... Um espetáculo bizarro: Milhares de pessoas dentro de caixinhas de lata coloridas, abarrotadas até o teto das coisas mais variadas e cada caixinha emitindo seu som, às vezes risadas, uma criança chorando, uma música e às vezes tudo misturado, produzindo apenas um zumbido inexorável. Era o som da peregrinação paulistana ao santuário da deusa Alegria. Juliana interrompeu minha quimera com um delicioso beijo no pescoço. Me virei.
                Mais a frente, policiais rodoviários paravam alguns carros que já se encontravam quase parados, na esperança de pegar alguns bandidos indo fazer um arrastão na praia, ou mais provável, algum pobre coitado que não licenciou o carro porque não tinha grana e vai ter menos ainda depois de pagar o guincho e o pátio que o carro dele vai ficar durante todo o feriado.  Os policiais ganham uma comissão e todo mundo fica feliz.
                “Abaixa a bola, pô!”
                Passamos sem problemas pela barreira cinza, todos sorridentes pra não levantar suspeitas. Sim, éramos culpados cada um pela sua culpa.
                Gradualmente, operava-se uma mudança no ar: Cheiro de peixe e esgoto, a pele ficando grudenta, maresia, a alegria. Aquela aura teve o poder de refrescar nossos espíritos e o mar havia de lavar nossa alma. Enfim, a praia! Paulistano não sabe, mas não vive sem o cheiro de merda do Tietê e do Pinheiros, por isso, vai pra praia e caga por lá.
                Chegamos à casa de praia dos pais da Márcia, que gentilmente “emprestaram” o lugar para ela e suas “amigas” passarem alguns dias. Descarregamos nossas bagagens, trocamos de roupa e vamos a la playa!
                Caminhando descalços pela rua, passávamos pela fileira de carros que pareciam apenas fazer voltas infinitas no quarteirão. Rapazes com seus braços tatuados pra fora do carro com o som no último volume (engraçado como esses carros geralmente só tem homens dentro), tiazinhas tentando estacionar seus enormes utilitários no meio-fio e mais babaquices do gênero. A Márcia ia na frente de mãos dadas pro Paulo e eu e Juliana íamos logo atrás.              
                Ninguém namorava ninguém ali, pelo que eu sabia. Na verdade, eu não sabia muita coisa, ou não queria saber. Me sentia atraído por Juliana, apesar de ela ter cara de Teresa. A cara parecia uma perna, as pernas eram estúpidas, mas tinha belos olhos azuis, como o mar bem longe desta praia imunda.
                Depois de muito custo achamos nosso lugar ao sol, em meio ao mar de guarda-sóis. Nosso modesto pedaço de areia, que me dava pouca visão do mar, mas uma ótima perspectiva de corpos semi-nus de todos os tipos e tamanhos. Tomando a cerveja de praxe, fiquei alguns minutos observando aquela cena. Mulheres obesas bezuntadas de óleo deitadas na areia fritando no sol com crianças de movimento quase simiesco correndo ao redor. Aqueles rapazes que outrora desfilavam em seus carros do ano agora caminhavam pela praia segurando a respiração: “Barriga pra dentro e peito pra fora” e olhando a bunda das abençoadas. Comecei a rir sozinho, não sei se era a maresia batendo ou se precisava dar um mergulho.  Chamei o filho da puta do Paulo, que estava dando uns amassos na Márcia (que era muito mais gostosa que a Juliana, apesar de várias vezes eu já tê-lo flagrado olhando pra bunda dela. Vai entender por que a galinha do vizinho bota ovo amarelinho).
                Como na água também era difícil encontrar um espaço, fomos nadando mais para o fundo, desviando das pessoas solitárias com cara de paisagem, que obviamente estavam mijando ou coisa pior. Cheguei em um ponto em que não senti meu espaço invadido, relaxei e dei uma bela mijada. Pela fisionomia de Paulo, supus que ele fazia o mesmo. Ficamos ali alguns minutos boiando, dei uns mergulhos, conversamos um pouco sobre a menina de biquíni preto, a de biquíni azul e a de branco. Depois de um consenso (todas eram gostosas), resolvemos voltar pra as meninas e tomar mais umas cervejas para que o ciclo da vida se repetisse.
                O sol já se punha quando voltar para casa foi necessário. Bêbados, queimados, salgados, com areia nos ouvidos. Chegando lá, tomei um banho, me sentei numa cadeira da varanda, abri uma cerveja, acendi meu cigarro e continuei a ler o livro mofado que de última hora havia resolvido trazer. As meninas ainda se empetecavam pra não sei o que e o Paulo dormiu no sofá.
                Percebi que um dia no sol, no mar e enchendo a cara não faz muito bem pros miolos, sendo que as letrinhas dançavam até cair das páginas do livro. Desisti e adormeci docemente por dois segundos, quando ouvi a Juliana falando que queria ir pra uma boate mais tarde. Todos pareciam não ter gostado muito da idéia, especialmente o Paulo. “Porra pessoal, se é pra ficar num ambiente fechado, apinhado de desconhecidos, onde se mal pode conversar, a gente faz isso em São Paulo! Estamos na praia, caralho.”
                Sugeri que fôssemos tomar uma cerveja na beira da praia e depois caminhar bêbados na orla. A idéia agradou a todos, menos Juliana, que queria dançar. “Mais tarde você dança na horizontal”, eu disse baixinho no ouvido dela, tirando um sarro.
                “Vamos pra rua, ainda faltam dois dias para o ano novo!”

*A continuar...