terça-feira, 27 de março de 2012

Gato escaldado

Tem o velho ditado, aquele que muito por aí se escuta e eu sei de cor
Me olhando de lado disse o velho, pobre diabo:  
“Tem medo de água fria o gato escaldado”
Fiz que entendi, continuei andando, pensando

Não consegui evitar e comecei a imaginar a cena,
pobre gato! (...pode uma coisa dessas?)
Mas peraí: Pra escaldar o bicho a água deveria ser quente.
Animal indolente,  por que temerias tu a água fria?
Foi lá no telhado, vendo a lua minguar que me ocorreu
O líquido incolor por si só já afastou o gato da bacia.

Gato escaldado, invejo tuas sete vidas
Pois só tenho seis corações quebrados
e um balde de água fria.
Água morna só pro banho, a escaldante já escaldou
O pior já passou

Por agora só te digo uma coisa, caro gato,
Na bacia de água, nem a ponta do meu rabo!

quarta-feira, 7 de março de 2012

A estranha

                 O calor estava insuportável e eu lá, dentro do carro, parado no trânsito numa rua da cidade. Praticamente estacionado, tentava me distrair observando a vida passar mais rápido do lado de fora. Olhava com os olhos semicerrados o vapor que saía do teto dos carros escaldados pelo sol de Março que castigava o concreto de nossa São Paulo. Veias dilatadas, coração acelerado e visão borrada, obscurecida pelos imprescindíveis óculos, sensações que me trouxeram memórias e um mal estar.  Lembrei-me dos meses que passei em casa no ano anterior, refém de dias bem quentes como aquele, vítima de minha própria mente. Na época, cheguei a pensar que havia cedido enfim à verdadeira loucura e viveria num devaneio eterno desses que vemos em filmes, ou manicômios.
            Eu tinha medo.
Acabei me recuperando, não somente graças aos remédios que o médico friamente me receitara por detrás de uma mesa cheia de livros mofados, mas também pelo apoio que recebi de um certo amigo. Conheci Raul pouco tempo depois da minha primeira crise. Ele era totalmente o oposto de mim, um cara seguro de si, decidido e que fazia tudo aquilo que lhe vinha à cabeça. Era um cara feliz.
Pra mim, que sempre vivi reprimido e agora com medos irracionais, ele era um herói. Mas apesar da ajuda de Raul, às vezes sentia o pânico respirando por sobre o meu ombro.  Esse é um mal que se abate sobre um grande número de pessoas hoje em dia. Vida agitada, avalanche de informações inúteis e relações interpessoais demasiadamente superficiais levam certos indivíduos a ficar com medo da sua própria sombra.
Síndrome do pânico, o medo do leão que nunca veio.  E quem teme mais as presas e garras do leão do que os ímpios?
            Tentei afastar esse pensamento de mim refletindo sobre os motivos pelos quais eu estava naquele lugar, naquela hora, no trânsito. Uma garota. Sim, Raul havia insistido para que eu a conhecesse, disse que tinha de sair de casa e conhecer pessoas novas. Ouvi seu conselho e fui atrás. Havíamos conversado um pouco pela internet e ela propôs que nos encontrássemos em um bar para uma cerveja e um bom papo.  A garota sofria dos mesmos males que eu – ansiedade, pânico e sabe-se lá mais o que -  e isso acabou nos aproximando. Doentes adoram falar de doenças, ou seria essa apenas uma desculpa pra conversarmos? Achei estranho tal convite partir de uma garota tão estranha, mas apesar da personalidade autodestrutiva e depressiva, ela se mostrou uma pessoa inteligente e idealista. Além do que, pelas fotos, me era bem atraente. Era um risco dos mais deliciosamente arriscados.
            Cheguei ao bar enfim, todo esbaforido, e lá estava ela. Cabelos pretos, pele branca e a mão delicada envolvendo uma caneca de chopp coberta de gelo. Água brotou da minha boca seca. Sorri e a cumprimentei timidamente, sentando e pedindo um chopp daqueles.

Ela sorriu.

            Falamos sobre tudo, desde história e filosofia até coisas triviais, passando pelos gostos e experiências de cada um. Percebi o quão interessante a garota realmente era e me senti bem à vontade em sua presença.
Bebíamos e conversávamos animadamente, enquanto eu observava como os seus cabelos negros emolduravam perfeitamente o rosto de nariz pequeno e os expressivos olhos castanhos. Não me parecia aquela garota insegura e cheia de problemas que conversava se escondendo atrás de mensagens de texto. Me parecia uma pessoa feliz e animada. Ânimo, do latim anima – Alma. Como disse lucidamente Neruda, “o riso é a linguagem da alma”; e não tem nada mais sexy do que uma mulher dessas rindo. Mas não parava por aí, pois além dessas qualidades que acho ter descrito, ela possuía mais uma: era uma garota brincalhona. Adoro mulheres molecas, eu mesmo sou meio moleque.
A temperatura agradável do bar e a garota com sua aura perfumada me fizeram esquecer de tudo que não fosse o presente, deixando o futuro – e a ansiedade – de lado. Eu, a garota e entre nós a cerveja, que cada vez mais exercia seu inebriante poder sobre minha cabeça, trazendo aquela sensação que só uma boa bebida e uma companhia feminina aprazível são capazes de causar. Mas decidimos sair dali por um motivo qualquer, dividimos a conta e saímos. Chegando lá fora, acendemos um cigarro e continuamos a conversar. Apesar da noite já ter destruído o dia, sentia o calor castigar meu corpo novamente. Comentei a respeito, ao que a garota simplesmente sorriu por entre a fumaça do cigarro. Disse então para que fôssemos pra sua casa, que era bem próxima dali e tinha ar-condicionado.

Ar condicionado.

Entramos no carro e mais uma vez, como um interruptor que se liga sozinho no meio da noite, senti aquele medo irracional. Uma angústia encheu meu coração enquanto o carro arrancava em direção ao promissor desconhecido. A sensação foi levemente afastada quando virei-me para garota e percebi que ela me fitava com um delicioso sorriso nos lábios, mas o conforto durou por pouco tempo. Poucos minutos nos levaram para frente do prédio em que ela morava. Ver aquele monstro de concreto ali, pendendo do firmamento escuro, obscureceu minha alma e perturbou minha mente. Pensei em ir-me embora dali o mais rápido possível, mas era tarde demais. Na batalha entre o pânico e o desejo, desci do carro seguindo a garota e seu doce perfume pra dentro do edifício, como que um robô flutuante. Não trocamos uma palavra até que o elevador parasse no oitavo andar e ela dissesse com o rosto meio de lado:

– É aqui.

Mais alguns momentos inexoráveis se passaram enquanto ela revirava a bolsa à procura das chaves, o que fez com que eu visse algumas caixas de remédios dançando por entre seus dedos. Amenizando minha angústia, eis que surgem as chaves com um tilintar confortante. Duas voltas na fechadura e a porta se abriu, revelando o peculiar interior do apartamento. Entrei depois dela e notei um odor químico estranho no ar, mas não conseguia identificar o que era. Casa de vó misturado com incenso, sei que é estranho, acredite, mas sou bom com cheiros. Fechei, enfim, a porta atrás de mim e senti o baque seco da maçaneta coincidindo exatamente com uma batida mais forte do meu coração, que quase pulou pela boca e depois pela janela semiaberta do apartamento.
A garota disse então para que eu me sentasse por ali enquanto ela tomava um banho. Escolhi o sofá bege e liguei o velho televisor da sala, que após um estalido não transmitia nada além de estática em todos os canais. Desliguei o aparelho e fiquei olhando em volta, à procura do tal ar-condicionado. O apartamento era todo branco, de uma limpeza impecável. Uma fotografia de um jovem casal pendia torta em uma das paredes. Logo abaixo, uma Bíblia aberta em cima da mesinha. Mas nada do tal ar-condicionado.
Levantei-me impacientemente e comecei a andar em círculos na pequena saleta. Os móveis escuros e lustrosos tinham um aspecto tétrico, com objetos precisamente alinhados uns com os outros. Sobre uma escrivaninha encontrei um frasco branco com umas pílulas brancas dentro, alguns papéis que me pareceram cartas e um estilete. Peguei uma das cartas e o que vi me deixou um pouco mais atordoado. O papel estava completamente coberto com palavras ininteligíveis em caneta vermelha. Coloquei os papéis meticulosamente onde antes estavam e decidi que precisava tomar um ar, mesmo que esse ar pútrido da cidade. Tudo devia ser coisa da minha cabeça.
Ofegante, caminhei até a janela e vi a rua movimentada lá embaixo. Pessoas estressadas em seus carros tão ocupadas em seus pequenos mundos, absorvidas por seus grandes problemas e limitadas a suas grandiosas vidas.

Senti um aperto no coração e depois algumas batidas mais fortes e rápidas.

Percebi que novamente o pânico me cercava. Virei-me, procurando afastar o medo de minhas veias, mas foi em vão. As paredes se fechavam ao meu redor e o cheiro do apartamento começou a me dar náuseas. Ao olhar novamente para a foto do casal sorridente num lugar indefinido do espaço-tempo, senti que ia desmaiar. Tudo que me veio à cabeça foram as suspeitas de que aquela menina era maluca e certamente estava cheia das intenções mais sórdidas comigo. Como fui tolo em confiar em uma garota tão estranha. Desabei sobre o sofá e pensei no que o Raul me diria nessa hora:
– Fica tranquilo amigo...
Ou talvez mais alguma besteira pra me fazer sentir melhor.
Estava procurando fôlego pra ir embora, quando ouvi um estalo e a porta do banheiro se abriu. Em meio ao vapor, emergiu Amanda vestindo uma camiseta bem larga, um shorts e o cabelo molhado caindo por sobre os ombros. Impulsivamente, me levantei, tomei-a em meus braços e beijei aqueles lábios finos. O pânico se fora e eu me fui com ele.
...
Acordei com um grito, era madrugada ainda. A luz se acendeu e pude ver que Amanda estava coberta de vermelho. Sentei-me e pude ver que ainda jorrava sangue de um profundo corte em seu punho direito. Muito terror nos olhos dela olhando incrédula para seus tendões rompidos por entre as camadas de pele e gordura que se misturavam ao sangue grosso. Ela olhou para mim e, cravando seus olhos nos meus, ensaiou um novo grito. Mas antes que ele pudesse sair, com um rápido e preciso movimento, cortei sua garganta com o estilete que ainda estava em minhas mãos.

- E foi assim que aconteceu senhor delegado.

O delegado tirou os óculos do rosto suado e os colocou na mesa, esfregou as mãos e perguntou:
- E essa foi a primeira vez que você faz mal a alguém?
- Foi sim senhor.
- E quanto ao sangue que encontramos em seu veículo? Ele não pertence à vítima.
- Não sei, senhor.
- Como não sabe? Alguém mais usa o seu carro?
- O Raul às vezes usa.
- Quem é esse Raul e onde podemos encontrá-lo?

Não respondi, pois senti um nó na garganta ao ouvir o rugido do leão chegando novamente. Meu coração batia na nuca e minha respiração se tornou rasa. Simplesmente não conseguia mais falar, havia sido novamente dominado pelo medo, que logo se transformou em pânico.

Apaguei.
...
O acusado, então réu confesso, permaneceu calado por um período aproximado de trinta minutos após ser inquirido sobre quem seria o tal amigo Raul e onde seria possível encontrá-lo, a despeito dos esforços policiais em fazê-lo falar. Foi então deixado sozinho na sala de interrogatório, onde permaneceu calado, sendo observado através do espelho falso. Subitamente, levantou-se e caminhou até o espelho, olhando para o próprio reflexo. Fechou os olhos com força e abriu-os novamente, sorrindo para si mesmo. Então disse a seguinte frase, que consta também em gravação de áudio, claramente captada pelos microfones, transcrita a seguir:

“- Fica tranquilo amigo...”