domingo, 25 de novembro de 2012

O homem e a rosa

Fora o casamento dos meus pais que perdura até hoje (uma pérola rara), minha primeira impressão do amor foi no banheiro de um restaurante.
Eu devia ter uns seis anos, e na mesa do nosso lado havia um casal brigando, falando coisas que eu não compreendia. O rapaz tinha uma rosa nas mãos, mas pelo que me parecia, a moça não a aceitava de jeito nenhum. Comi minha pizza, terminei de tomar a garrafa de coca e, enquanto meus pais riam e bebiam, fui ao banheiro.
Adorava fazer xixi nos urinóis, era uma nova conquista, mas tinha que ficar na ponta dos pés. E foi ali que eu vi. 
A rosa vermelha que eu havia visto antes nas mãos do Tio da mesa do lado estava agora no urinol, em meio a todo aquele xixi e algumas pastilhas de naftalina. Fiquei muito triste, tão triste que fui fazer xixi na privada. Não aguentava olhar pra rosa naquele estado. Voltei pra mesa, vi que o casal já tinha ido embora e fiquei quieto o resto da noite. 
Agora que estou aqui te escrevendo esta mensagem, apaguei meu cigarro e vi a rosa no que restou da brasa. Tão bonita ela era, enrolada em um papel crepom branco e um laço de fita vermelha como a flor. Foi parar no urinol, como um símbolo da pureza e perfeição do amor boiando numa poça amarela e desprezível. 
Continuo com o coração quebrado. Foi só mais uma das decepções, pois desde que conheci a rosa, já tive a minha parcela de corações quebrados, egos lascados e flores mijadas. Eu achei que cada vez ia ficar menos triste, mais escaldado, mas nada. O que me deixa mais puto é pensar como uma coisa tão bela vai parar em lugares tão podres, como este cinzeiro na minha escrivaninha.
Pois veja bem, coração: esta última flor, era uma das mais belas do jardim. Senão a mais bela. Tão perfeita, com sua forma, sua cor, seu cheiro e seu calor, que me dispus a cuidar dela pro resto da vida, minha vida, meu amor. Mas veja só, essa flor queria que eu tocasse fogo no resto do jardim. "Foda-se", eu disse, por ela botaria fogo nesse mundo inteiro, mas desse mundo inteiro eu faço parte também. Acordei. 
A rosa era bela, mas de que adiantava tanta beleza e formosura em um campo de cinzas? Ou em meio à urina?
Deixo agora rosas florescerem noutros campos mais chamuscados, enquanto acendo outro cigarro. Quem sabe dá próxima não me apaixono por um copo-de-leite?

Fui colhida numa tarde ensolarada, logo depois de ter sido regada por uma senhora já idosa. O rapaz aproveitou o descuido dela, que entrara na casa para buscar alguma coisa, e me cortou com o canivete suíço: "tlac!". Foi um crime rápido e eficaz. Fui escolhida por ser uma das mais bonitas, talvez. Mas me sentia fraca. Ele levou-me pra casa e mergulhou-me num vaso para que eu recuperasse o viço. Pude ver que morava num lugar mais modesto do que a casa da senhora que me regava. Então ele me retirou da água e enrolou-me num papel branco e atou um laço de fita da cor de minhas pétalas. Logo eu estava com ele num restaurante, e da mesa onde me encontrava pude ver um casal e um menino de uns seis anos de idade. O menino soprava ar por um canudo num líquido preto, os adultos riam disso e ele, meio entediado, parecia não perceber a graça da coisa; queria é entender de onde vinham as bolhas, por quê é que brotavam do fundo como mágica.

Aproximou-se uma moça de cabelos negros, e o rapaz, radiante, ofereceu-me a ela. A moça recusou. "Você não me entende", disse ela, e o diálogo que se seguiu não foi muito diferente do que acontece entre um casal de mamíferos. Mamíferos são mesmo seres estranhos... Inventam tantos empecilhos e obstáculos quando é tão mais possível a simplicidade. Mais previsível também. Parece que gostam de complicar as coisas. Gostam de prolongar um encontro que pra nós, angiospermas, é tão linear: precisamos apenas da antera de outra flor que nos polinize o estigma. Ah, é claro: precisamos da visita de um inseto abelhudo que fuçe e faça cócegas em nosso gineceu, e ele já traz o pólen do qual precisamos. Também coleta pólen do nosso androceu e o leva pra outra flor. Pronto! Simples assim. Mamíferos são tão cheios de blablablá: precisam desse monte de salamaleques e regras de como entender o que se passa na cabeça um do outro. Pior: precisam de sintonia. Um precisa concordar com o outro para que o ritual se complete. E isso parece ser o mais difícil. Entendam-se, porra! É demais pra cabeça de uma rosa como eu. 

O rapaz não parecia muito bem. Sua autoconfiança, que instantes atrás irradiava-se como o sol, foi-se embora com a moça. De repente ele me levou pra uma bacia branca. E eu jamais imaginei que eu pudesse receber tamanha bênção: ureia em seu estado mais puro!! Ao alcance do talo! E eu nunca havia sido tão bem tratada por aquela senhora que me regava com água... Ao mesmo tempo em que o rapaz saía, entrou o menino que brincava com o refrigerante. E quando eu pensei que ele fosse ser tão generoso quanto o rapaz - fitou-me durante alguns minutos com seu rosto infantil - deixou-me ali, estendida. O menino foi embora cabisbaixo - vai ver não descobrira o segredo das bolhas - e eu fiquei ali por mais alguns instantes. Até que apareceu um homem vestido em preto e branco que, ao me ver no urinol, ralhou com outro que vestia azul. Esse bom homem me retirou de lá e me levou pra fora do restaurante, arrancou minhas folhas e me fincou na terra fofa e gostosa, um banquete pra um galho de rosa como eu. 

E é assim que espalhei meus ramos e virei outro pé de rosa, talvez mais viçoso que o original, que outrora morou na casa de uma velha senhora. Mas os humanos, esses ainda não entendo. Gosto deles - e penso aqui com meus espinhos que, não fosse por seus corações bagunçados, talvez não tivesse tanta sorte. De repente precisam de um inseto que faça o trabalho de polinização, vai saber...? Dizem que a culpa disso tudo são os hormônios que bagunçam a cabeça dos apaixonados. Nós, angios, só precisamos mesmo de auxinas e giberelinas. Muito mais simples. Ponto. 

Vai uma rosa aí, mamífero?

Nenhum comentário:

Postar um comentário