segunda-feira, 1 de julho de 2013

O dia de hoje e como amanhã não existe

Maria era o nome dela, eu acho. Sentamos-nos para uma cerveja em um bar qualquer e logo começamos a falar sobre as coisas, sobre a vida, quando percebi que ela havia deixado o celular em cima da mesa: “Que indelicado” – pensei alto. Ela sorriu.
“Não tenho tempo para nada” – ela começou. “Um minuto” – pegou o celular.
Havia dois amigos sentados na mesa ao lado, e enquanto Maíra se ocupava com seu aparelho, comecei a prestar atenção na conversa alheia:
“... e então ele disse que eu devia fazer o que me mandavam. Porra, não aguento mais essa merda todo dia...” – disse o primeiro, que se interrompeu com um grande gole de cerveja. O copo se esvaziou. Vou chamar ele de João (achei que ele tinha cara de João).
O outro, que tinha mais cara de Roberto e o copo ainda cheio respondeu:
“Cara, mas a vida é assim. Se você não manda, acaba sendo mandado. E na verdade, não sei o que é mais complicado, ou menos estressante. Trabalho é trabalho. Se fosse legal teria outro nome.”
“Não precisava ser assim, não mesmo. Sinto que estou deixando a vida passar...”
“Então sai lá fora, procura outra coisa. Fácil”
“Fácil? Você sabe o quanto eu estudei pra chegar onde estou? Claro que sabe. Além do que, tenho contas pra pagar, você sabe muito bem que não é assim que funciona.”
“Se pra você é mais fácil viver com isso, que seja. Eu acho que você reclama demais.”
Marilene voltou a falar comigo, fazendo minha atenção novamente voltar para seus grandes olhos verdes. O celular voltou pra mesa e continuamos a conversar sobre as coisas, sobre a vida, sobre trabalho... Ela era uma garota muito inteligente, divertida e interessante, mas meu Deus, quanta ansiedade!
Pegou o celular novamente: “Dois minutos”.
Os dois rapazes continuavam a conversa:
“...a vida é muito breve pra se fazer o que não gosta” – concluiu o cara que tinha cara de João.
“Eu tenho que discordar de você. Eu acho que a vida nos dá tempo suficiente pra se fazer o que se gosta e o que não se gosta, nos dá tempo pra decidir o que a gente gosta e o que não gosta e dá até um tempinho a mais pra gente ver as coisas de uma forma diferente e quem sabe mudar de ideia”.
“Você está dizendo então que não estou perdendo meu tempo?” – João já arrastava um pouco a voz. Seu copo estava cheio de novo.
“Depende. Acho que talvez perca seu tempo fazendo o que não gosta. Mas acho que perde ainda mais tempo sem saber do que gosta.”
“Mas eu gosto da minha profissão cara! É o que eu sempre quis fazer, só que não assim. Não acho que estou crescendo, me sinto cada vez mais achatado pelo sistema.”
“Acho que isso vai além da tua profissão. Além de que, acho que o sistema não tem nada a ver com isso. Quanta gente vive a vida inteira no sistema e ainda arruma tempo pra ser feliz...”
“Gente feliz é gente burra, Mauro.” – O cara que tinha cara de Roberto se chamava Mauro, afinal – “Essas pessoas passam a vida inteira felizes porque não tem perspectiva, são ignorantes.”
“Pode ser, pode ser... Mas ainda acho que dá pra ser feliz sendo assim tão inteligente quanto você.” – Mauro Roberto riu.
“Vá se foder!” – João retribuiu a risada e encheu o copo do amigo.
Márcia me perguntou alguma coisa. O celular em cima da mesa. Continuamos a conversar, mas aí já tinha perdido o fio da meada:
“Guarda isso aí!”
Ela desconversou e conversou. Conversamos sobre a vida, sobre as coisas, sobre trabalho, sobre o tempo. O celular de novo. Como tudo é breve!
“Três minutos.”
Os dois amigos já tinham ido embora.
A vida passando lá fora e eu aqui trabalhando, estudando, fazendo o que não gosto, bêbado e olhando Mariluce mexendo no celular. Que besteira! A vida não passa lá fora, digo, a nossa vida. Ela passa aqui primeiro, nesta mesa grudenta. Quem passa lá fora sou eu, e a chuva lá fora vai ser o que eu faço dela. Realmente,  a vida não é breve pra se fazer o que deve ser feito, o que gostamos e acreditamos, contanto que a nossa escolha seja vivê-la. Cada momento, cada lugar, cada palavra... Nunca vai acontecer de novo da mesma forma. Maricleusa nunca mais vai ser tão bonita olhando praquele celular, sentada nesta mesa deste bar. Eu nunca mais vou ouvir os dois amigos conversando enquanto ouço a chuva e os carros passando lá fora e talvez nunca mais fique bêbado que nem eu estou. Posso ficar menos ou mais, até igual, mas não aqui, agora... A vida passa aqui, hoje, neste minuto. Amanhã ainda não existe, é só mais um sonho.
Marlene tirou os olhos do celular e percebeu que estava indo ou voltando do trabalho. Só iria descobrir quando saísse da estação do metrô e olhasse pro céu. Será que ela vai olhar?
Uns dias depois recebi uma ligação muito estranha:
“Desculpe ligar a cobrar, perdi o celular. Você tem um minuto?”
“Quem está falando?”
“Resposta errada.” – disse a voz.
Pensei um pouco... - “tenho vários minutos”.


Adivinhem só quem era!

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