terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O cu

controverso
Objeto de desejo, de apreço
desprezo
Motivo de piada, troça e prosa
Conquista amorosa.

Fenômeno único, assim como individualidade bem pudica
O cu é meu
E “cada um com o seu.”

Em contrapartida, é característica coletiva
Muitos dos bichos o têm, e o bixo humano também
Ainda bem

É recurso evolutivo, seleção natural
Quem tem cu tem medo
Diante de uma atividade paranormal
Ou de um novo enredo

Alguns podem chamar-me de animal,
Mas vos digo: o cu é uma entidade transcendental
Transcende cor, raça, credo, time de futebol, gênero
Caráter, cateter, educação, suéter
“cu todo mundo tem”

Todos vieram ao mundo crus
remelentos e nus
e se você é gente, não tem desculpa:

Vai tomar no cu.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Mixoscopia romântica


Olhar que estanca

Pele alva e intrigante beleza



                                Distância

  Saudade

                Reencontro          

          Amor

Tristeza


Intensificam sentimentos

Motivam lembranças

Indagações e incertezas

Revisitando memórias

Agir, nem pensar!!!

Ao menos, me resta sonhar...


quarta-feira, 2 de julho de 2014

Esse teu sorriso


Agora que vim dormir notei.

Deixei meus olhos sobre a prateleira de livros do teu quarto.

Pela primeira vez na vida esqueci as lentes que me fazem ver o mundo.

Sem perceber

Sem querer

Sem saber

Você me faz ver o mundo


Diferente





quinta-feira, 12 de junho de 2014

O homem da porta dos fundos



O que mais me espantou naquela história toda não foram os tímidos e furtivos gracejos, não foi o apartamento, nem o diploma-de-alguma-coisa-importante solenemente pendurado na parede do pequeno escritório a caminho da suíte. Tampouco o porta-retrato tombado na cabeceira. Espantou-me o fato de ter tudo dado certo pra mim no final, afinal.
                Nessas viagens que faço sozinho, a trabalho, que fico lembrando essas coisas. Sentado na poltrona do avião com meus próprios pensamentos, uma caneta numa mão e um copo de uísque na outra - são como amigos que há tempos não mais tinha.
                Bom, vamos do começo. No dia seguinte ela me contou que era casada. Fingi surpresa e indignação.
“Já é tarde, tenho que trabalhar” – Eu disse recolhendo minhas roupas do chão e as vestindo apressadamente. Tudo uma grande peça de teatro.
                No outro dia, apareceu misteriosamente no dedo dela uma grande aliança dourada. Aliança que refletia a meia-luz do abajur enquanto aquela mão me tocava, me acariciava, e por fim, eu estava sob seu domínio - e sob o domínio de seus olhos me olhando de baixo. A ilegalidade, imoralidade e inconsequência me excitavam de tal modo, que no começo admito ter forçado a abstinência de qualquer senso ético, e alguns anos depois, adicionaria amor próprio na lista de coisas a não sentir. Tesão era a ordem do dia, da noite.
                Com uma ligação sempre inesperada, uma voz ofegante e aveludada ela me convidava para mais um pernicioso e delicioso ‘pró-libido-proibido’:
“Ele não está.” – Ela sussurrava.
 O álibi era a infelicidade em casa, falta de atenção e até supostas agressões verbais e físicas. Nunca acreditei nessas coisas sendo que vinham daquela boca que me envolvia por inteiro e me deixava sem palavras pronunciáveis.
                Não me importava os olhares dos porteiros, seguranças e vizinhos. Se não fosse eu ali seria outro, pensava. E estava certo. Pouco tempo depois as ligações cessaram e por coincidência, a vi um dia de risos com um colega, e o sumiço da aliança me confirmou o que já estava na literatura. A aventura havia acabado.
                Alívio, chateação e uma pitada de ciúme se seguiram, mas logo se esvaneceram com o mover do tempo. Fortuitamente me contive em criar sentimentos mais densos com a senhora. Comecei a lembrar de como me sentia observado sempre que estava com ela e percebo hoje que, na verdade, os olhares de censura vinham de mim mesmo. Estava enfim livre.
                E sim, deu tudo certo. Eu que era um solteirão incorrigível, fadado a depois de mais alguns bons anos ter de namorar com puta, ter amigos só depois da terceira cerveja e, por fim, envelhecer praguejando sozinho agora estou casado com a mulher mais linda e adorável deste mundo. É sempre bom ter alguém que te ama te esperando em casa...

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Peixe-beta



Como a música que se acaba antes da gente querer
Uma história em que o protagonista há de morrer
A banda passando e não consegui ver
Ter dois olhos pra não ler
(aquele cigarro que esqueci queimando sozinho)

Foste embora por ora, pra fora, não chora
Sorriso no rosto, vento nas costas
Felicidade que não faço parte
Vida sem arte

Dois mil anos (me parece) se passaram, e mais dois irão passar
Memória de peixe-beta é fraca, mas ele não esquece:
"Amar é pra poucos
Poucos são pra se amar"

Tempo depois, pobre peixe-beta
esqueceu-se de que era d´água
pulou pra fora, morreu
logo veio o gato e comeu.

Adieu

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A caixa

De dentro do meu quarto escuro eu lia um livro qulaquer com aquele ar solene de quem estudou a vida inteira pra ter um bom emprego, um carro do ano algumas coisas mais que eu não lembro ou deixei em algum canto mofado. 
O jardineiro trabalhava lá fora embaixo do sol escaldante, até que ele bateu na janela etreaberta com um sorriso desdentado e um cacho de bananas na mão. A luminosidade entrando fez arder meus olhos:
- Óia só, a bananera deu caixa!
Dei aquela risada irônica de quem sabe mais e emendei:
- "Caixa"? Caixa do que, Josimar?
- Caixa de banana, ué. O senhor é burro, patrão?

Josimar tinha poucos dentes na boca, poucas ideias na cabeça e falava mais que rádio AM em estação de crente. Nunca quis perguntar sua religião com medo de estar dando corda pra forca. Sorri sem graça, fechei a janela só pra ouvir aquele jardineiro jardinar o jardim que na verdade, não era meu.


Cirã da Baianinha

Quem se cansa desse mundo,
onde só tem bailarina?
Não têm ameba, coceira tampouco escarlatina...
...todo mundo tem, menos bailarina

Não sabe se é menina, se é mulher
não sabe quem é, o que quer
Não sua, não tem frieira nem chulé

Mas ficar na ponta do pé ela fica.
Fica, bailarina!