segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A caixa

De dentro do meu quarto escuro eu lia um livro qulaquer com aquele ar solene de quem estudou a vida inteira pra ter um bom emprego, um carro do ano algumas coisas mais que eu não lembro ou deixei em algum canto mofado. 
O jardineiro trabalhava lá fora embaixo do sol escaldante, até que ele bateu na janela etreaberta com um sorriso desdentado e um cacho de bananas na mão. A luminosidade entrando fez arder meus olhos:
- Óia só, a bananera deu caixa!
Dei aquela risada irônica de quem sabe mais e emendei:
- "Caixa"? Caixa do que, Josimar?
- Caixa de banana, ué. O senhor é burro, patrão?

Josimar tinha poucos dentes na boca, poucas ideias na cabeça e falava mais que rádio AM em estação de crente. Nunca quis perguntar sua religião com medo de estar dando corda pra forca. Sorri sem graça, fechei a janela só pra ouvir aquele jardineiro jardinar o jardim que na verdade, não era meu.


Cirã da Baianinha

Quem se cansa desse mundo,
onde só tem bailarina?
Não têm ameba, coceira tampouco escarlatina...
...todo mundo tem, menos bailarina

Não sabe se é menina, se é mulher
não sabe quem é, o que quer
Não sua, não tem frieira nem chulé

Mas ficar na ponta do pé ela fica.
Fica, bailarina!