quinta-feira, 12 de junho de 2014

O homem da porta dos fundos



O que mais me espantou naquela história toda não foram os tímidos e furtivos gracejos, não foi o apartamento, nem o diploma-de-alguma-coisa-importante solenemente pendurado na parede do pequeno escritório a caminho da suíte. Tampouco o porta-retrato tombado na cabeceira. Espantou-me o fato de ter tudo dado certo pra mim no final, afinal.
                Nessas viagens que faço sozinho, a trabalho, que fico lembrando essas coisas. Sentado na poltrona do avião com meus próprios pensamentos, uma caneta numa mão e um copo de uísque na outra - são como amigos que há tempos não mais tinha.
                Bom, vamos do começo. No dia seguinte ela me contou que era casada. Fingi surpresa e indignação.
“Já é tarde, tenho que trabalhar” – Eu disse recolhendo minhas roupas do chão e as vestindo apressadamente. Tudo uma grande peça de teatro.
                No outro dia, apareceu misteriosamente no dedo dela uma grande aliança dourada. Aliança que refletia a meia-luz do abajur enquanto aquela mão me tocava, me acariciava, e por fim, eu estava sob seu domínio - e sob o domínio de seus olhos me olhando de baixo. A ilegalidade, imoralidade e inconsequência me excitavam de tal modo, que no começo admito ter forçado a abstinência de qualquer senso ético, e alguns anos depois, adicionaria amor próprio na lista de coisas a não sentir. Tesão era a ordem do dia, da noite.
                Com uma ligação sempre inesperada, uma voz ofegante e aveludada ela me convidava para mais um pernicioso e delicioso ‘pró-libido-proibido’:
“Ele não está.” – Ela sussurrava.
 O álibi era a infelicidade em casa, falta de atenção e até supostas agressões verbais e físicas. Nunca acreditei nessas coisas sendo que vinham daquela boca que me envolvia por inteiro e me deixava sem palavras pronunciáveis.
                Não me importava os olhares dos porteiros, seguranças e vizinhos. Se não fosse eu ali seria outro, pensava. E estava certo. Pouco tempo depois as ligações cessaram e por coincidência, a vi um dia de risos com um colega, e o sumiço da aliança me confirmou o que já estava na literatura. A aventura havia acabado.
                Alívio, chateação e uma pitada de ciúme se seguiram, mas logo se esvaneceram com o mover do tempo. Fortuitamente me contive em criar sentimentos mais densos com a senhora. Comecei a lembrar de como me sentia observado sempre que estava com ela e percebo hoje que, na verdade, os olhares de censura vinham de mim mesmo. Estava enfim livre.
                E sim, deu tudo certo. Eu que era um solteirão incorrigível, fadado a depois de mais alguns bons anos ter de namorar com puta, ter amigos só depois da terceira cerveja e, por fim, envelhecer praguejando sozinho agora estou casado com a mulher mais linda e adorável deste mundo. É sempre bom ter alguém que te ama te esperando em casa...