terça-feira, 2 de agosto de 2016

Eu lhe sirvo


A monotonia do ruído do carro rolando pela estrada e a estática do rádio foram interrompidas bruscamente. Ela desligou o aparelho como que com um tapa, dobrou uma das pernas, colocando o pé esquerdo somente com meias no assento do carro e continuou calada, apoiando-se na janela com o punho no queixo, olhando através dos óculos escuros para a paisagem da beira da estrada que até então a mim passava despercebida.

Uma reta sem fim era rodeada por focos de vegetação aqui e ali, em sua maioria rasteira, e de vez em quando árvores maiores zelavam por sobre velhas casas que pareciam há muito abandonadas. Ipês amarelos de vez em quando apareciam como que saudando os viajantes entediados, além de pinheiros e araucárias que ainda se sentiam estrangeiros ali. Morros encobertos de serração serviam de pano de fundo e bem lá na frente, uma montanha encoberta por uma mata densa e uma coroa de nuvens no topo. Era aquele nosso destino.

Um grande amigo havia me oferecido sua casa de veraneio para que eu pudesse relaxar no feriado. Eu já havia visitado a casa diversas vezes em companhia de meus amigos quando éramos mais jovens, mas era a primeira vez que viajava pra lá com somente mais uma pessoa.  

Estávamos no pé da serra quando decidi parar no acostamento para esticar as pernas e, bem, dar uma bela mijada. A garota continuou impassível dentro do carro enquanto eu caminhava em direção a uma cerca de arame farpado onde um cavalo esquelético mastigava algo invisível. Acendi um cigarro e fiquei por uns instantes admirando as salientes costelas do animal quando ouvi a porta do carro se abrir. Sem olhar para trás, ouvi passos que estalavam o mato cada vez mais próximo e, quando me virei, lá estava a garota olhando para um ponto fixo no nada, a menos de um metro de mim. Antes que eu pudesse fazer ou dizer qualquer coisa, o cavalo – ou o que restava dele – relinchou estridentemente e em um trote débil, mas determinado, e sumiu em meio a um velho galpão a uns 100 metros da cerca. Não se via vivalma por ali.

Sem trocar sequer meia palavra, retornamos ao veículo e seguimos viagem.

Era um casarão encravado na encosta da montanha, provavelmente construída em meados de 1920, tendo em vista a arquitetura quase que colonial. Os andares da casa acompanhavam a inclinação do terreno, que subia abruptamente até o topo do morro. Parei o carro defronte ao portão metálico na esperança que o caseiro – que supostamente teria sido avisado pelo meu amigo da minha chegada – o abrisse. Soei a buzina, desci e toquei o velho sino repetidas vezes e nada. Já impaciente, a garota desceu do carro, caminhou flutuando até o portão e o abriu como que dando um tapa na minha cara. “Lar, doce lar.” – ela disse, com uma voz que quase duvidei que existisse.

Voltei para dentro do carro e estacionei descuidadamente na estreita garagem, ao lado da modesta moradia do caseiro, que apesar de visivelmente vazia, emanava um cheiro recente de comida e roupas molhadas pendiam de um varal improvisado. Bati na porta repetidas vezes só para ouvir a respiração inquieta da minha companheira de viagem que me aguardava na porta do casarão já com sua mala de rodinhas a seus pés. Com um gentil gesto de sua delicada mão, ela virou a maçaneta de cobre e a porta se abriu com um rangido:

- Vamos?

                Desisti dos caseiros, peguei minha mala no carro e segui minha parceira, que já havia entrado na casa e se sentado de pernas cruzadas em uma poltrona na sala de estar. Sugeri que primeiramente deixássemos as malas na suíte principal, que ficava no terceiro andar ao que ela, com um aceno de cabeça concordou, levantou-se vagarosamente e me acompanhou até a escadaria.

Tomado por um sentimento nostálgico e ansioso por uma conversa, antes de começar a subir as escadas comecei a contar à minha companheira sobre as minhas experiências naquela casa, que eram muitas. Logo ali na sala de estar, onde ela havia se sentado, havia sofás e poltronas ao redor uma mesa baixa com um candelabro sem velas. Era lá que em tempos passados nos reuníamos para jogar cartas, beber e nos aquecer no frio. No canto esquerdo havia uma lareira onde ainda podia se notar restos de lenha e carvão de uma visita anterior qualquer. Nas amareladas paredes havia uma pintura mofada de dois cavalos pastando, um de cabeça erguida e o outro, aparentemente buscando por comida no solo. Havia também algumas fotos antigas em moldura oval de pessoas sem sorrisos, provavelmente falecidas há anos. A garota apenas olhou ao redor com seus grandes olhos brilhantes e redondos enquanto me ouvia.

Peguei uma mala em cada mão e subimos para o segundo andar, onde era a cozinha e a sala de jantar. Mais fotos antigas nas paredes e duas pinturas que sempre me faziam querer virar vegetariano quando comia ali: Um vaqueiro de semblante apático laçando um boi, que de boca aberta, parecia chorar.  Uma outra era de uma mulher idosa sentada numa cadeira lendo um livro na beira de um lago verde. Naquela cozinha já havíamos preparado desde jantares dignos de um imperador até um modesto miojo com ervilha. Na grande mesa de oito lugares já havíamos matado nossa fome e trocado estórias das mais diversas, além de silêncios coletivos de quem come com muita fome, ocupando todas as cadeiras e mais alguns em bancos extras e até o sofá verde de couro que trouxemos lá de baixo.

No último andar, no topo da escadaria, um corredor escuro levava a dois quartos para a direita - um em frente ao outro, e para a esquerda, a desejada suíte principal. A porta entreaberta revelou a grande cama de casal, com a cabeceira em madeira escura adornada em anjos nus, para a esquerda um armário colonial alto e do lado oposto uma porta encoberta por cortinas amareladas que davam para uma varanda. Eu nunca havia dormido naquele elusivo quarto antes, que era sempre reservado para os donos da casa, mas durante aqueles dias, o dono seria eu. Me senti feliz jogando as malas em cima da cama e vendo o pó subir pelos raios de luz que vazavam por entre o vão das cortinas, que foram abertas pela garota com um movimento rápido. Ela sentou-se no canto esquerdo da cama, um pouco inclinada para trás apoiando-se com os braços esticados, cruzou as pernas e ficou estática olhando através da janela de molduras metálicas quadriculadas.

Sentei-me aos pés da cama, deitei de lado apoiado sobre o cotovelo e olhei para fora da janela também. O dia estava nublado naquele  pequeno jardim rodeado de pinheiros, com uma estátua de alguma divindade feminina grega (uma dríade talvez) coberta em musgo e um banco de praça ao lado, quase sendo engolido pela grama alta. Podia-se também ver o final do terreno, delimitado por uma malcuidada cerca viva, onde depois dela o terreno continuava subindo até um muro tomado pelo mato. Comecei a pensar em mais uma anedota para contar à garota, que estava de costas para mim, mas fui tomado por súbita tontura e enjoo. Os longos cabelos negros da garota, junto com sua blusa azul escura começaram a se fundir com a luz vinda lá de fora e senti uma que ia vomitar. Me sentei, apoiei a cabeça nas mãos, massageando as têmporas e olhei para a frente e respirei fundo. Quando inalei o ar com uma grande tragada, abri os olhos e me deparei com uma criança, numa pintura a óleo do lado esquerdo da porta. A garota no quadro parecia ter por volta de seus quatro anos de idade, mas os olhos castanhos pareciam idosos. Vestido branco com babados, e, ao fundo, um jardim de flores amarelas. Minha cabeça doeu mais, levantei e vi as paredes e teto se fechar sobre mim. Fui até a janela na intenção de abri-la quando senti um gentil toque na minha mão.
“Não estou bem” -  sussurrou a garota.

Girei a chave que trancava a janela e a empurrei, mas nada aconteceu. Coloquei mais força até que com um rangido, uma das folhas se abriu e um ar mais frio começou a entrar. Minha cabeça continuava a pesar e a garota seguia segurando firmemente minha mão. Ajudei ela a se levantar da cama e saímos do quarto. Deixei a porta aberta, e na soleira da escada ela me perguntou o que eu tinha. Disse-lhe que sentia uma dor de cabeça, provavelmente por eu ser alérgico a pó e a casa estar fechada há um bom tempo. Ela assentiu e começou a descer as escadas primeiro, soltando a minha mão gradativamente. Os raios de sol que emanavam das três janelas da escadaria revelavam partículas de poeira agitadas em torno da garota em movimento. Ela virou à direita na sala de jantar e eu a segui, só para vê-la se sentar à mesa do outro lado da sala. Apoiou então a cabeça sobre o sobre a mão esquerda e ficou me olhando enquanto eu encostava na parede, logo após a entrada em arco e sem porta.

Minha cabeça parecia um pouco mais leve agora e um breve sorriso feminino trouxe claridade aos meus pensamentos. Perguntei como ela se sentia, ao que ela simplesmente continuou me olhando e então arqueou uma das sobrancelhas.
“Vou subir e abrir todas as janelas lá de cima, me espere aqui”, eu disse depois de um silêncio.

Mas assim que me voltei para a escadaria, uma cena me causou um arrepio que percorreu toda a espinha e parou no fundo da minha alma.

Alguns degraus acima, uma garota toda de branco me fitava com olhos tão negros que pareciam sugar toda a luz e vida em volta. Ela flutuava estática sobre os degraus e seu vestido branco dançava sobre o corpo esguio e pernas longas, revelando pés descalços. Ela murmurava algo incompreensível numa voz espectral que emanava um aroma flores, dor e morte.

Desnorteado, recuei alguns passos sem tirar os olhos da aparição até bater as costas na lateral da cristaleira da sala de jantar, que tilintou como um brinde a cem mortos. Caí sentado no chão e não vi mais nada.
De algum ponto na escuridão ouvi meu nome. Começou a ficar mais perto, mais alto. Abri os olhos e vi um borrão em cores pastéis. Meu coração batia forte.
“Precisamos sair daqui agora”! – Eu disse quase sem ar nas entranhas.
Ela me ajudou a levantar e me arrastei, sem soltá-la, até descremos mais um lance de escadas e alcançarmos o carro, que felizmente, estava aberto e com a chave no contato. Esquecendo-me completamente das malas, bati a porta, dei a partida e vi pelo retrovisor que o portão estava fechado. A garota sentou-se no banco do passageiro bem devagar. Fechou a porta delicadamente e repousou as mãos sobre as pernas, olhando para frente com a postura obscenamente reta. Quando ia pedir que por favor, abrisse a porra do portão, três toques na janela do carro fizeram meu coração pular uma batida.

Do lado de fora, através da janela parcialmente embaçada, vi uma senhora de cabelos longos e grisalhos, com grandes olhos castanhos e redondamente cansados. Marcas de expressão na testa e nas bochechas me deixariam triste em qualquer outro dia. Quando consegui sentir meu coração bater direito novamente, o que demorou alguns segundos, girei a maçaneta da janela lentamente até abri-la menos da metade.

“Senhor João? ” – Perguntou a senhora com uma voz trêmula. – “S-s-sim, sou eu” -  Respondi ofegante. “O senhor Marcos nos avisou que chegaria hoje...”. Uma voz! Enfim ouvi uma voz que de alguma maneira acalentou meu ser e fez com que eu desligasse o carro que fumaçava naquele ar frio do inverno nas montanhas. Vendo meu aparente desconforto, a senhora arregalou mais aqueles grandes olhos, olhando também para a minha companheira, que continuava olhando para um ponto fixo na frente do carro: “Está tudo bem? ”.

Por entre o vão da janela, tentei descrever com a máxima habilidade que dispunha no momento o que havia se passado naqueles poucos minutos dentro da casa. O fiz sem medo do julgamento daquela senhora, como num desabafo. Ela só assentia, como se realmente acreditasse em mim, o que me pareceu surreal, sendo que eu próprio questionava minha sanidade e bom senso enquanto falava. Assim que terminei e respirei fundo, ela somente sugeriu que saíssemos do carro para tomar um café, aparentemente ignorando as coisas horríveis que eu havia descrito em mórbidos e ricos detalhes. Hesitei por alguns segundos até ouvir a outra porta do carro abrir. A garota murmurava por entre os dentes como se nada tivesse acontecido – “Preciso de um café. ”.

Observei enquanto a garota caminhou ao redor do carro ao encontro da senhora, cumprimentando-a friamente, como parentes que só se encontram em velório. Minhas mãos frias e trêmulas finalmente encontraram a maçaneta da porta, que abri bem devagar somente para sentir minhas pernas titubeantes assim que pisei no chão de terra. Segui a senhora e a garota até a porta da modesta moradia dos caseiros que revelou uma mesa redonda com uma jarra de café fresco, que emanava um aroma revigorante. Sentamo-nos silenciosamente enquanto a senhora nos servia em pequenas e modestas xícaras de vidro. Com uma fala baixa e um pouco rouca, tentava me convencer a ficar. “Minha filha gosta de assustar os outros. ” - Dizia a senhora. “Não bate bem das ideias, se é que você me entende... sofreu muito... não de dava com o pai...” – Continuava. Perturbou-me a forma como ela se dirigia somente a mim, ignorando a presença da minha companheira, que bebia seu café em goles breves e silenciosos, olhando para a parede.

A história que a senhora contava era convincente, mas explicava pouco o que eu achava que havia visto, pelo pouco que consegui assimilar naquele momento . Todavia, sendo meu julgamento duvidoso até para mim mesmo e, aparentemente também para a minha querida companheira de viagem, decidimos novamente adentrar na casa, mas dessa vez na companhia da senhora que – de acordo com sua história, havia cuidado da casa por mais de vinte anos. ”Muito mal”, tendo em vista a situação do jardim e o fantasma na escada, pensei comigo mesmo, quase rindo de loucura. A senhora havia se prontificado a resolver o problema do pó no quarto apenas trocando a roupa de cama. Implausível, murmurei baixo, pois temia por essa palavra não ser mais plausível. Olhei escada acima, na esperança de ver a aparição novamente sobre os degraus. O pó dançava nos raios de luz que emanavam das pequenas janelas redondas da escadaria que terminava num corredor longo com um retrato oval indiscernível da distância, que eu não havia reparado antes. Subimos lentamente as escadas, primeiro a senhora, depois a garota e, finalmente eu, que olhava desconfiado para aqueles degraus acarpetados, paredes amareladas e retratos agourentos que pareciam me acompanhar com olhar, me julgando e criticando.

A senhora subiu até o último andar e virou à esquerda, onde nossas malas estavam. Senti que minha cabeça não pesava mais tanto e que o ar estava mais leve, todavia, para meu estranhamento, a janela que eu havia aberto a tanto custo estava fechada novamente. Sem nenhum esforço a senhora abriu as duas folhas da pesada janela, deixando novamente o ar frio e fresco invadir o ambiente. “Esse pó mata qualquer um. ” Disse a senhora enquanto abria o grande armário em madeira escura, retirando um conjunto de cama aparentemente limpo. Sentei-me na poltrona ao lado da cama e percebi que o retrato da menina de olhar gélido que eu antes havia visto, era na verdade uma paisagem que representava um rio correndo ao meio de altos e estranhos ciprestes num tom de verde vivo demais para a realidade. Senti o chão se abrir um pouco sob meus pés. Teria eu perdido o juízo, enfim?

Cama feita, janela aberta. A senhora deixou claro que o que fosse necessário, era só chamar. Desceu então as escadas a passos apressados, enquanto eu ainda olhava o quadro em que o rio corria e ouvia o “toc, toc, toc” escada abaixo até que a porta da frente finalmente se fechou. Só então pude perceber que minha companheira se despia, aprontando-se para o banho, enquanto a noite somente começava a se revelar. Fizemos amor até que ela adormecesse sem banho e começasse a respirar alto e profundamente, mas eu não conseguia dormir. Olhava para o teto de madeira, que relevava diversas formas de rostos e monstros. Decidi então pegar meu caderno da mala e continuar escrevendo um romance que havia começado há uns anos atrás. A luz da lua adentrando por entre as cortinas me ajudou a achar o tal caderno e uma caneta que eu nem lembrava que existia, perdida dentre roupas amarrotadas e papéis inúteis dentro da minha mala arrumada às pressas.

Caneta e caderno em mãos, me dirigi ao pequeno corredor que levava ás escadas à direita – para onde evitei olhar – e os dois quartos de hóspedes. Entrei no quarto à esquerda, onde eu sabia que tinha uma escrivaninha e uma luminária.

O quarto obviamente fedia a mofo, o que me levou imediatamente para a janela com a intenção de deixar o ar das montanhas entrar. Com facilidade, abri as cortinas, destranquei a janela, que facilmente se abriu, permitindo uma brisa cheirosa tomar conta do aposento – me pareceu como dama da noite. Coloquei o caderno sobre a escrivaninha e acendi a luminária, que revelou um quarto sem quadros, me trazendo alívio. O quarto só tinha duas camas de solteiro e um armário entre elas, similar ao que havia no quarto onde eu dormiria, além da escrivaninha que não tinha nada além da luminária e muito pó. Bati com as mãos para tirar o excesso, apenas para deixar marcas de dedos e mãos sobre a madeira.  Na gaveta, que abri por mera curiosidade, só havia um desenho de criança numa mofada folha de sulfite - uma garotinha em meio a flores coloridas com traços pesados e cores anormais. A menina sorria sem nariz, com dois pontos negros como olhos. Coloquei a folha de volta e fechei a gaveta.

Alguns minutos contemplando o silêncio me deram ideias e desatei a escrever. O barulho da caneta trepidando sobre o papel parecia ensurdecedor:

Mais alguns momentos inexoráveis se passaram enquanto ele revirava a gaveta à procura de algo, o que fez com que eu imaginasse algumas cartelas prateadas de remédios dançando por entre seus dedos. Amenizando minha angústia, eis que se fez um breve e confortável silêncio. Mas para meu desespero, logo ouvi duas voltas na fechadura e a porta se abriu...”

Me peguei batendo a ponta da caneta no topo da folha quase vazia, enquanto olhava para a porta entreaberta do quarto procurando pelas palavras certas, mas nada. Cheguei até a torcer por mais algum tipo de alucinação ou surto psicótico, mas eu continuava inútil, trançando a caneta por entre os dedos e admirando as sutis nuances da escuridão.  Acabei em fim desistindo e voltei para a cama, que deveria estar aquecida com o calor da garota, mas estava fria como a noite lá fora. Depois de algumas viradas, acabei sucumbindo a um sono leve, interrompido por sonhos incompreensíveis, chocantes e que não lembrei quando acordei e percebi que dormia só. Chamei-a pelo nome, mas só pude ouvir pássaros se lamentando lá fora, como se tivessem pena de mim.

Fui até o banheiro, onde molhei os olhos e os cantos da boca com aquela água gélida, na esperança de acordar e ainda estar na cama. Olhei-me no espelho, apoiando-me na antiga pia gigantesca e achei que parecia mais jovem, apesar das olheiras e cara inchada. Voltei para o quarto, vesti uma jaqueta e, cambaleante, comecei a descer as escadas, ao que senti um cheiro de café aguado no ar enquanto percebia o quão familiar aquela escadaria era. Me apoiei algumas vezes nas paredes até chegar na sala de jantar, onde a mesa havia sido posta para apenas uma pessoa. A garota estava sentada em uma cadeira do lado direito, me fitando de novo pelo canto dos olhos. Comi pão com manteiga, frutas e tomei todo o frasco café na delicada xícara com bordas que lembravam uma concha.

Saímos a caminhar pela estreita estrada de terra, sentido ao topo do morro. Casas vazias e pinheiros silenciosos saudavam nossa caminhada, até que chegamos a uma espécie de mirante, que permitia uma vista sensacional da pequena cidade abaixo. Prédios baixos disputavam as alturas com altas árvores de todo o tipo, enquanto diminutos veículos se moviam vagarosamente sobre finas linhas acinzentadas. Cada vez mais eu me apoiava sobre a cerca de peroba até que percebi vozes se aproximando. Um garoto terminava de subir o morro com dois burricos em rédeas enquanto conversava com um senhor que havia aparecido por entre portões brancos e desbotados logo no fim da rua. Não fui capaz de discernir as palavras que trocavam, até chegar à paranoica conclusão de que se referiam a mim.

Enquanto olhavam em minha direção e gesticulavam, os burricos que o garoto trazia por uma corda encardida relincharam enquanto davam passos para trás sacudindo a cabeça de um lado pro outro. O garoto, puxado pelos burricos deu meia-volta, o velho entrou em casa e eu voltei a contemplar o horizonte com olhos e coração apertados. A garota estava debruçada sobre a mesma cerca que eu há alguns metros de distância, alheia a todo o resto.

Fumei alguns vários cigarros em silêncio, apreciando a paisagem e odiando meus pensamentos, até que resolvi descer de volta à casa, beber algo e esperar a hora do almoço.

Sentado em uma das cadeiras da sala de jantar, sozinho, bebi mais vinho do que deveria, pois, após almoçar, sentei-me sem compromisso no sofá de couro verde e adormeci. Quando acordei percebi que já era noite, minha cabeça doía uma dor aguda, a garota não estava em lugar algum e minhas mãos estavam quase congeladas. Subi até o quarto, sentei na cama vazia, tirei as botas e preparei um banho bem quente. Enquanto o chuveiro velho gotejava água quente sobre as minhas costas comecei a ter novas ideias para o meu interminável romance. Saí do chuveiro tremendo, me vesti e fui direto para o quarto da escrivaninha. Abri o caderno com toda a razão de quem acabara de ser tocado pela mais bela das musas inspiradoras, mas tudo o que a caneta fez foi um ponto, que foi aumentando enquanto minha mão ficava imóvel sobre o papel. As ideias pareciam vir tão rápidamente, que até o barulho da minha respiração se tornava ensurdecedor.

Tomei um grande susto quando ouvi um barulho nas escadas, como se alguém descesse pisando pesado degraus de madeira, propositalmente, só para me provocar. Levantei furioso, empurrando a cadeira para trás, que tombou com um som seco sobre o tapete mofado.

“... Ele saiu do quarto abrindo a porta violentamente justo quando eu colocava meu pé descalço e frio no terceiro degrau. Chamou pelo meu nome, e antes que eu pudesse reagir, já estava com suas mãos fortes, porém sedosas no meu pescoço. Sua voz grave ecoava pelo corredor e meu sangue começou a ferver nas minhas veias. Com meu braço esquerdo, apertei o corrimão quase tão fortemente quanto ele apertava minha garganta e, a um passo de desfalecer, puxei-me com toda a força que me restava para o corrimão, ao mesmo tempo em que girava o quadril para a esquerda. Ele, provavelmente já bêbado, perdeu o equilíbrio ali, no topo da escada, e caiu de cabeça no sexto degrau com um baque que ressonou pelo corredor, e foi deslizando inerte até quase a sala de jantar. Após recuperar o ar, desci vagarosamente as escadas até ele. Imóvel e de bruços na escadaria, mas com o pescoço completamente torcido para trás, ele ainda insistia em me olhar com aqueles grandes e redondos olhos castanhos que nossa filha havia herdado. Aqueles olhos para os quais arrumei a cama, servi o jantar e acabei por me apaixonar há uns anos atrás. Aqueles olhos que ensinei a montar, e que do cavalo na minha frente, me lançavam sorrisos de cumplicidade. Olhos loucos que acabaram por me aprisionar silenciosamente na obsessão por um caderno cheio de rabiscos e numa escadaria sem fim, que me levou do céu aos quintos dos infernos. ”

Com os momentos finais de consciência, apreciei o belo silêncio que me olhava de cima, e com o último suspiro, senti orgulho por haver terminado mais um parágrafo.