domingo, 11 de setembro de 2016

Diário de viagem: o primeiro almoço


Almoçava em um shopping, dividindo minha atenção entre a mochila – que havia colocado no chão – e meu almoço, minha primeira refeição em umas 12 horas desde que saíra de casa. Enquanto atacava o prato ferozmente, vi um homem maltrapilho de seus 40 anos se esgueirando por entre as mesas cheias de pessoas comendo ou com olhar vazio para a tela do celular. Estava pedindo dinheiro e, inescapavelmente, chegaria à minha mesa. Retornei a atenção para meu prato, na esperança de não ser incomodado, mas minha hora chegou:

- Você pode me dar um dinheiro pro almoço? Estou com fome. – Disse o homem quase que num grunhido. Segurei apreensivo a alça da minha mochila.

                Estendeu-me a mão cheia de moedas estúpidas e pude rapidamente contar não mais do que três golpes. Em um ato de altruísmo egoísta, ou vontade de me livrar logo daquele ser do pântano – ainda não entendo meu motivo – dei-lhe uma nota amassada e encardida de cinco golpes. Ele tomou o dinheiro da minha mão, agradeceu-me com mais um grunhido e sumiu. Me senti um puta idiota das galáxias, o cara provavelmente ia torrar meu suado dinheiro em pó, pedra ou algum outro mineral. Continuei minha refeição me esforçando para comer por entre os dentes rangendo, mas terminei de comer engolindo lágrimas:

                Algum tempo depois o homem havia voltado com uma bandeja cheia de comida, pedindo para sentar-se ao meu lado. Assenti maquinalmente e ele me estendeu novamente a mão, com uma nota de 2 golpes dobrada em dois.

                - Obrigado pelo almoço, irmão. Fica com o troco que sobrou.

                Deixei então o homem mastigando com contentamento e os dois reais do troco usei mais tarde, em alguma coisa que não me lembro. Você lembraria?




 

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